O Que Revelam os Números da Imigração
e da Emigração
Quando a situação dos trabalhadores piora num dado local, uma das opções que percebem é fazer a trouxa e mudar para um sítio onde a sua situação não seja tão má. Dessa forma pressionam a burguesia a subir os salários no local que abandonam, ao mesmo tempo que aliviam a burguesia de subir salários no novo local que escolhem. É uma forma dura e lenta da situação dos trabalhadores num dado país se aproximar da dos outros países mas resulta da expressão da luta de classes nas condições de consciência e de organização das duas principais classes sociais, proletariado e burguesia, existentes na sociedade a cada momento.
Claro está, que, para além deste aspecto crucial, muitas vezes está também em jogo, quer no lado de onde se sai quer no lado para onde se vai, a existência de determinado tipo de indústria ou a utilização de determinada tecnologia numa ou em várias indústrias. Uma dada emigração pode liquidar uma dada indústria no local onde essa emigração tem origem, ou obrigar à sua transformação tecnológica, assim como uma dada imigração pode permitir o êxito de determinada indústria no local para onde essa imigração ocorre se a tecnologia empregue estiver adequada às capacitações desses imigrantes.
Milhões de portugueses já emigraram no passado e dezenas de milhares continuam a fazê-lo no presente: nos 9 anos que vão de 2015 a 2023, emigraram no total cerca de 700 mil portugueses dos quais cerca de 430 mil de forma temporária e 270 mil de forma permanente, ou seja emigraram cerca de 78 mil por ano, dos quais cerca de 30 mil de forma permanente. Destes 30 mil cerca de 12 500 tinham curso superior, ou seja nesses nove anos mais de 110 000 licenciados, mestres e doutores abandonaram o país. Ainda assim essa massiva exportação de capital humano não foi suficiente para melhorar significativamente o preço do trabalho especializado. Ou seja manteve os preços desse tipo trabalho a um nível que permite às empresas imperialistas, como a BOSCH e outras, explorá-lo (“criando” milhares de novos empregos qualificados em Braga, Ovar, Sines, Oeiras e outros “polos”) com expectativas de lucro farto e fácil.
No mesmo período imigraram para Portugal cerca de 800 mil pessoas, mas dessas 800 mil pessoas menos de 500 mil eram estrangeiros pois cerca de 330 mil tinham já a nacionalidade portuguesa, sendo até que cerca de 180 mil já cá tinham nascido, se bem que, para a luta de classes, isso não tenha qualquer interesse real. Para o mercado de trabalho tanto faz serem estrangeiros ou portugueses, terem nascido cá ou lá fora, o que conta é a pressão que exercem sobre os salários, quando em competição com os trabalhadores que já cá se encontram, ou sobre a burguesia quando, em função da luta, se estabelece a unidade entre os dois sectores.
Interessa também saber que 250 mil do total dos imigrantes ou eram jovens/crianças (menos de 20 anos) ou tinham mais de 65 anos (provavelmente reformados) interferindo indirectamente no mercado de trabalho: os 150 mil com mais de 65 anos afectando os preços dos bens de consumo e, dessa forma, fazendo valer menos os salários; as 100 mil jovens/crianças pressionando os pais a só aceitarem um salário que lhes permita dar vida aos filhos nas condições locais, “trabalhando”, portanto e de uma forma geral, a favor dos salários. No que respeita aos movimentos no sentido contrário durante o mesmo período, os números são muito menores: 35 mil com mais de 65 anos e 65 mil jovens/crianças no que respeita ao somatório dos emigrantes permanentes e temporários (permanentes respectivamente cerca de 2,5 mil e de 31,5 mil) .
O saldo migratório (a diferença entre os imigrantes permanentes e os emigrantes permanentes) passou de negativo anteriormente a 2017 (por exemplo em 2012 saíram para a emigração mais cerca de 37 mil pessoas do que entraram via imigração) para fortemente positivo em 2023 (a imigração foi superior à emigração em cerca de 156 mil pessoas). O saldo migratório total, considerando apenas os migrantes permanentes, somou nos últimos 12 anos (2012 a 2023) cerca de 425 mil pessoas, mas se considerarmos apenas quem afecta directamente o mercado de trabalho, ou seja descontando os jovens/crianças e os presumíveis reformados, o saldo é só de cerca de 210 mil pessoas.
De uma forma geral os números mostram que, na prática, a entrada de imigrantes agora verificada está longe de compensar a anterior saída de emigrantes, (actualmente residem em Portugal cerca de 1 milhão de imigrantes e residem no estrangeiro cerca de 5 milhões de portugueses emigrantes) mas altera a composição da população quanto às qualificações adequando-se, de uma forma geral e mais ou menos rapidamente, às “necessidades” do mercado.
Sem planificação económica (ou, o que vale o mesmo, com uma multidão de planos económicos individuais privados e uma meia dúzia de planos económicos de empresas imperialistas) só se pode esperar que os fluxos migratórios permaneçam idênticos e bem ancorados nos mercados laborais gerados nessa ausência de planificação nacional. Assim, quaisquer que sejam os controlos que a burguesia local venha a introduzir, o melhor que pode acontecer é aumentar a velocidade de adequação da população residente às necessidades de exploração de mão-de-obra pelos negócios privados, diminuindo, ao mesmo tempo, a velocidade de igualização das condições de trabalho e remuneração no mundo, tudo em favor dos exploradores do trabalho.
Mas não se mofem, terão a troca: os explorados de todos os países, imigrantes e não imigrantes unir-se-ão e não só destruirão o sistema que os explora e oprime como, ao mesmo tempo, serão capazes de construir uma sociedade de iguais!
PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS!
POR UM MUNDO ONDE, PARA SOBREVIVER, NÃO SEJA PRECISO EMIGRAR!
OUSAR LUTAR E OUSAR VENCER!
