A Questão de Ceuta: Entre os Interesses Imperialistas e a Divisão do Proletariado
A entrada de dezenas de milhares de imigrantes em Ceuta por via de Marrocos não deve ser vista simplesmente como uma «crise migratória». Para compreender esta situação é necessário olhar não só para as condições materiais que levam milhares de pessoas a abandonar os seus países, mas também para os interesses políticos e económicos que existem em torno do controlo das fronteiras. Uma entrada massiva de pessoas através de uma fronteira que é normalmente fortemente controlada pelas autoridades marroquinas levanta questões sobre a forma como a migração pode ser utilizada como instrumento de pressão entre Estados. Marrocos ocupa uma posição importante entre África e a Europa e tornou-se, ao longo dos anos, num dos principais parceiros da União Europeia no controlo da imigração. A Europa delega parte do controlo das suas fronteiras em Estados exteriores, fornecendo apoio económico e político para impedir a chegada de migrantes. O Estado marroquino adquire uma importante capacidade de pressão sobre Espanha e sobre a própria União Europeia, enquanto as populações migrantes acabam por ser transformadas em instrumentos de disputas entre diferentes burguesias e Estados. É necessário compreender esta questão no quadro da luta contra o imperialismo e das contradições existentes entre as diferentes forças da burguesia internacional. Os Estados Unidos e o imperialismo sionista possuem interesses económicos, militares e geoestratégicos no Mediterrâneo e no Norte de África, procurando consolidar uma rede de Estados dependentes dos seus interesses. Marrocos, governado por uma monarquia reaccionária e integrado nesta estrutura imperialista, encontra-se numa relação de forte dependência e vassalagem perante o imperialismo norte-americano e sionista, procurando simultaneamente defender os interesses da sua própria burguesia. A aproximação entre Marrocos e Israel reforça esta estrutura de alianças e a presença do imperialismo na região. Neste contexto, a questão migratória pode ser utilizada como arma de pressão sobre Espanha e sobre a burguesia europeia, aprofundando contradições políticas, económicas e sociais já existentes. Isto não significa afirmar mecanicamente a existência de um plano secreto dirigido por Washington ou Telavive, mas reconhecer que as contradições interimperialistas e a instabilidade podem ser aproveitadas pelas classes dominantes para reforçar as suas posições. A maior contradição encontra-se, porém, na própria política burguesa europeia. O capitalismo necessita da mão-de-obra imigrante, principalmente nos sectores mais precários e mal pagos, mas mantém o proletariado imigrante numa situação vulnerável, facilitando a sua superexploração. Ao mesmo tempo, a burguesia utiliza a questão migratória para dividir o proletariado, apresentando o imigrante como inimigo do trabalhador europeu e escondendo as verdadeiras causas dos baixos salários, da precariedade, da falta de habitação e da degradação dos serviços públicos. É precisamente neste terreno que cresce a extrema-direita, transformando o descontentamento legítimo das massas numa campanha xenófoba contra outros sectores do próprio proletariado. O trabalhador europeu é levado a culpar aquele que chega de fora, enquanto aqueles que realmente beneficiam da exploração permanecem intocados. Promove-se uma concorrência entre proletários nacionais e imigrantes que apenas serve para enfraquecer a luta de classes. O proletariado imigrante, por se encontrar numa situação mais vulnerável, é frequentemente obrigado a aceitar salários mais baixos e condições de trabalho degradantes, pressionando também as condições dos restantes trabalhadores. Em vez de uma luta conjunta contra a burguesia e o capital, cria-se uma divisão dentro das próprias massas. Esta divisão não é acidental: é extremamente útil para a manutenção da ordem burguesa, pois um proletariado dividido dificilmente consegue transformar o seu descontentamento numa força política organizada. Estas crises servem de pretexto para o fortalecimento do aparelho repressivo do Estado burguês. Mais vigilância, mais controlo policial, fronteiras militarizadas e novas formas de controlo são apresentadas como necessárias para garantir a «segurança». Porém, os mecanismos de repressão criados contra o proletariado imigrante podem amanhã ser utilizados contra todo o movimento operário, contra greves, manifestações e organizações revolucionárias. A resposta do proletariado não pode, portanto, ser o chauvinismo burguês nem o oportunismo revisionista que ignora estas contradições. É necessário denunciar o imperialismo, rejeitar a xenofobia e compreender que o proletariado europeu e imigrante possui interesses fundamentais em comum. A sua força não está na divisão entre nacionalidades, mas na organização e na unidade revolucionária contra o imperialismo, a burguesia e a exploração capitalista.
R
