Como se sabe, o primeiro partido político português a apresentar publicamente o cabeça-de-lista e a linha política geral para as próximas eleições europeias foi o Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP), factos que ocorreram na conferência de imprensa realizada no passado dia 14 de Fevereiro, na sede nacional do Partido.
O cabeça-de-lista proposto foi o camarada Leopoldo Mesquita, membro do Comité Central, e a linha política geral avançada consistiu na condução de uma ampla e unitária campanha eleitoral com vista ao não pagamento da dívida pública, à saída do euro, ao derrubamento do governo de traição nacional Coelho/Portas e à constituição de um governo democrático e patriótico, capaz de recuperar para o nosso País a democracia, a soberania política, a independência nacional e os direitos usurpados pela Tróica e respectivo governo aos operários, aos trabalhadores, aos jovens, aos soldados e marinheiros, aos desempregados, aos reformados, aos doentes e aos idosos.
De todos os objectivos políticos da campanha eleitoral do PCTP/MRPP, aquele que maior impacto e maior adesão obteve foi o da saída imediata de Portugal do euro, mediante referendo popular a convocar imediatamente.
Passada uma semana, mais exactamente a 22 de Fevereiro, o partido revisionista de Cunhal reuniu em Almada um encontro nacional, onde aprovou para as próximas eleições europeias um documento-guia intitulado “a situação nacional, as eleições para o parlamento europeu e a luta por uma política patriótica e de esquerda”, escolhendo também para cabeça-de-lista um membro do seu comité central, um tal João Ferreira, deputado no parlamento europeu nos últimos quatro anos.
Na subsequente conferência de imprensa, o tal Ferreira terá dito, conforme consta de todos os órgãos de comunicação social que ao evento se dedicaram, que um dos objectivos do PCP seria também a saída do euro.
Embora tardia, sobretudo se se tiver em conta que um tal objectivo político há muito que tem estado a ser proposto pelo PCTP/MRPP e por alguns economistas sérios e competentes, a anunciada nova posição do PCP com vista à saída de Portugal do euro mereceria sempre o apoio de todas as forças democráticas e patrióticas, e poderia até contribuir para que todas aquelas forças se pusessem de acordo com vista a apresentarem uma lista conjunta já nas próximas eleições para o parlamento europeu, a realizar no próximo dia 25 de Maio.
Mas a notícia pública, saída da conferência de imprensa do PCP, veio a revelar-se inteiramente falsa. E falsa, não por erro de interpretação dos jornalistas presentes na supracitada conferência, mas por causa do confusionismo propositado com que o cabeça-de-lista do PCP (da CDU, para ser-se mais preciso) abordou o assunto.
Sejamos claros: o PCP (ou CDU, se se preferir) não defendem nem nunca defenderam a saída de Portugal da moeda única europeia. Como é próprio do entranhado revisionismo do partido de Cunhal, o PCP, quanto à moeda única, tem uma atitude que não é nem pela saída nem pela permanência, antes pelo contrário!...
O assunto foi discutido no XIX Congresso do PCP, realizado nos dias 30 de Novembro e 1 e 2 de Dezembro de 2012, onde alguns congressistas economistas, nomeadamente o Dr. Octávio Teixeira, defenderam a saída de Portugal do euro, e outros congressistas do sector económico, designadamente o Dr. Eugénio Rosa, se opuseram a essa saída.
O Congresso acabou por aprovar uma posição pública que foge precisamente à questão central: deve ou não deve Portugal sair do euro e retomar a sua soberania monetária e cambial, com a reinstituição do Escudo?
Sobre o euro, e de concreto, a resolução política final saída do congresso limita-se a dizer:
“A criação do euro confirmou-se (...) como parte do projecto estratégico do domínio do grande capital e das principais potências capitalistas europeias, um instrumento ao serviço da exploração dos trabalhadores e dos povos e do aprofundamento das condições de rendibilidade do capital”
Ou seja: o euro é mau! Mas deve ou não Portugal manter-se com essa moeda? Ora, aqui nada propõem em concreto contra o euro os nossos revisionistas.
Conclui-se pois que no último congresso do PCP a questão do euro foi discutida, mas nenhuma medida política foi aprovada contra o euro.
Segue-se que, ainda em Almada, realizou o PCP, como já se deixou sublinhado, um encontro nacional no passado dia 22 de Fevereiro, onde foi aprovada uma resolução sobre “A situação nacional, as eleições para o parlamento europeu e a luta por uma política patriótica e de esquerda”, resolução que foi distribuída à imprensa no encerramento da conferência.
Nessa resolução, a questão do euro é abordada de uma maneira um tudo nada diferente da maneira como tinha sido abordada no XIX congresso. Senão, vejamos: o PCP (ou a CDU, se se preferir) propõe-se levar a cabo, nas eleições para o parlamento europeu, “uma campanha (...) que se bata pela dissolução da União Económica e Monetária e pela adopção de medidas que preparem o país face a qualquer reconfiguração da Zona Euro – - nomeadamente as que resultem da saída de Portugal do euro, seja por decisão própria seja por desenvolvimento da crise da UE”.
Como vêem, a confusão e o oportunismo políticos, que aliás fazem parte do ADN do partido revisionista cunhalista, não podiam ser maiores.
Com efeito, no seu último congresso nada propuseram de concreto sobre o assunto; mas agora, depois de se aperceberem do enorme sucesso que a política da saída do euro tem vindo a granjear junto dos operários, fazem um flique-flaque de costas e propõem-se, durante a campanha eleitoral europeia, bater-se pela dissolução da União Económica e Monetária, ou seja, propõem bater-se para acabar com o euro em toda a União Europeia, mas não propõem a saída unilateral de Portugal do euro...
Onde, porém, o oportunismo revisionista do partido cunhalista toca as raias da paranóia delirante é quando proclama que o PCP deve bater-se “pela adopção de medidas que preparem o país face a qualquer reconfiguração da Zona Euro, nomeadamente as que resultem da saída de Portugal do euro, seja por decisão própria seja por desenvolvimento da crise da União Europeia”.
Afinal, se estão dispostos a baterem-se pela dissolução da União Económica e Monetária, não será que deviam indicar quais são concretamente as medidas políticas que vão pôr em prática para alcançar essa dissolução? Ou é só conversa?!
E que medidas é que acham os revisionistas cunhalistas que devem ser desde já adoptadas por Portugal, se vier a sair do euro por decisão própria ou expulso por indecente e má figura? Afinal, Portugal deve sair do euro ou não?
O confusionismo oportunista do PCP e a barafunda em que, de documento em documento, se vai embrulhando, mostram que Jerónimo já não se vai aguentar muito tempo no cargo de secretário-geral, ó larila!...
Espártaco