Aos especialistas na matéria não passará despercebido o papel que um partido pequeno e não parlamentar, como é o PCTP/MRPP , tem desempenhado na definição do plano estratégico ferroviário nacional, de tal modo que o nosso Partido conquistou definitivamente o direito à palavra no espaço público sobre um assunto tão momentoso, sobretudo através de sucessivas tomadas de posição do Dr. Garcia Pereira.
A razão do sucesso da linha do Partido neste campo assenta fundamentalmente em três pontos:
- Um plano ferroviário nacional é, antes de tudo, sobretudo e para além de tudo, uma questão política e não uma questão técnica, como pretendem os Cravinhos da nossa terra;
- Um plano ferroviário nacional é um instrumento da independência política e do desenvolvimento económico nacional;
- Um plano ferroviário nacional pressupõe uma fundada visão da história do País e uma perscrutante visão do seu futuro.
Foi com base em tudo isso que se definiu o plano ferroviário nacional como a estrutura básica de uma organização de transportes não de um país periférico, mas de um país de centralidade atlântica, porta de entrada e de saída de todos os continentes para o continente europeu e vice-versa.
Do ponto de vista técnico, a estrutura ferroviária será a de uma linha de bitola europeia e de alta velocidade, para carga e para passageiros.
O seu traçado é o de uma linha que sirva todos os portos de mar portugueses – uma infra-estrutura marítima única em toda a Europa e rara no mundo, sobretudo para um país tão pequeno – ligando ao noroeste peninsular e ao centro da Europa, aqui pela rota dos emigrantes: Litoral - Guarda (Vilar Formoso) – Irun – Handaia – Antuérpia - Berlim – Moscovo.
Na configuração desta estrutura ferroviária assume importância vital a ferrovia Aveiro – - Guarda – Salamanca, porquanto 90% das exportações portuguesas para a Europa se fazem hoje por via rodoviária, através da A25 e A23, que segue justamente o traçado que há-de seguir a ferrovia Aveiro – Guarda - Salamanca.
O transporte rodoviário para grandes distâncias e grandes tonelagens está condenado a desaparecer, por via do seu carácter poluente e preços cada vez mais caros, sendo em breve substituído pelo transporte ferroviário eléctrico, pouco poluente e relativamente mais barato.
Não é porém esta a política do actual governo de traição nacional Coelho/Portas, o qual se limita a seguir as instruções de Madrid e de Bruxelas.
A ferrovia Aveiro – Guarda – Salamanca transportará para a Europa as cargas recebidas nos portos portugueses do sul (Sines, Setúbal, Lisboa), do centro (Figueira da Foz e Aveiro), do norte (Leixões e Viana do Castelo) e da Galiza.
De momento, dada a subserviência do actual governo aos ditames de Madrid, tudo tem sido encaminhado para ligar por ferrovia o porto de Sines, único porto ibérico de águas profundas, à centralidade de Madrid, provavelmente por comboio de bitola ibérica durante muitos e muitos anos ainda.
No projecto apresentado pelo governo Coelho/Portas para hierarquizar os maiores investimentos futuros, reserva-se 1,5 mil milhões de euros de fundos comunitários para investir na ferrovia portuguesa, investimento que o governo PSD/CDS guarda prioritariamente para a ligação Poceirão/Caia, ou, dito de outro modo, Sines/Madrid.
Foi para vender o seu nefasto plano ferroviário aos municípios do centro – Aveiro(PSD), Viseu (PSD) e Guarda (PSD) - que o secretário de estado dos transportes e comunicações, Sérgio Monteiro, se deslocou ontem à Guarda, e aí promoveu, com os autarcas daqueles três municípios, um debate sobre a partilha dos 1,5 mil milhões de euros de fundos comunitários e intentou vender-lhes um plano ferroviário que é de traição à pátria, e às populações daqueles municípios em primeiro lugar.
Todavia, da maneira mais imprevisível que se possa imaginar, o tiro saiu-lhe totalmente pela culatra.
O presidente Almeida Henriques, da câmara de Viseu, homem do PSD, repudiou frontalmente o projecto do secretário de estado, que pretendia apenas uma ligeira requalificação da linha da beira alta, ainda sem bitola europeia, avisando-o: “a modernização da linha não serve. Só a construção de raiz (de uma nova linha) responde aos desafios”.
Álvaro Amaro, o novo presidente da câmara da Guarda, também do PSD, contemporizou com o projecto do secretário, mostrando-se compreensivo com a exiguidade do dinheiro.
O presidente da câmara de Aveiro, Ribau Esteves do PSD, aceitou a ideia do governo como um primeiro passo, satisfazendo-se com a promessa de que a requalificação da linha começaria pelo lado de Aveiro!...
Esta traição do secretário de estado, com apoio dos autarcas do PSD de Aveiro e da Guarda, chegou imediatamente aos ouvidos dos autarcas de Viana do Castelo (PS), Santa Maria da Feira (PSD), Porto (independente), Matosinhos (independente) Coimbra (PS) e Figueira da Foz (PS), os quais, vendo-se atraiçoados por uma política de requalificação que os afastava da Europa, convocaram imediatamente uma reunião dos autarcas de todos os municípios, até agora nomeados, para Santa Maria da Feira, e avisaram o secretário de estado que era melhor para ele estar presente nessa nova reunião...
Quanto a mim, divirto-me com a estupidez de um governo que mal abre a boca sai sempre uma calinada, mas que, felizmente, leva logo pancada de toda a gente!...
Como o leitor vê, nós limitamo-nos a dizer que de comboio, para a Europa, só pela via dos emigrantes...
E não é que toda a gente está mesmo a pensar assim?! Até alguns autarcas do PS, até os autarcas independentes e – pasme-se! – até alguns autarcas do próprio PSD, como o edil de Viseu!... E querem uma ligação à Europa construída de raiz, e não coisa de remendos...
Espártaco
Corrigido em 3.07.2014: Ribau Esteves é do PSD e não do PS