São muito raros os surtos de legionelose – nome clínico da doença dos legionários – da dimensão daquele que Portugal está a viver nestes dias. Às sete horas da manhã de hoje, estava confirmada a infecção de 302 pessoas pelo bacilo legionella pneumophila, uma das cerca de cinquenta espécies de legionella detectadas e descritas na literatura sobre a matéria, contraída em três freguesias (Vialonga, Forte da Casa e Póvoa de Santa Iria) do município de Vila Franca de Xira, e de que havia já a lamentar a morte de nove dos infectados.
O surto português da doença, que teve o seu primeiro caso anunciado na passada sexta-feira, dia 7 de Novembro, é, por agora, o terceiro maior surto de legionela de sempre em todo o mundo, tendo ultrapassado largamente o número de infectados do primeiro surto conhecido, o do hotel de Filadélfia onde decorria um congresso da legião americana.
O surto português da doença é, em número de infectados, apenas ultrapassado pelo surto Barrow, em 2002, no Reino Unido, com 494 casos e pelo surto de Múrcia, em Espanha, no ano de 2001, com 449 casos. Em número de mortos, o surto português alcançou já todavia os dois maiores surtos verificados.
A Organização Mundial de Saúde considerou o surto português um caso grave de saúde pública e enviou de pronto um representante a Portugal para prestação de ajuda, que o governo recusou. Em Bruxelas, a Comissão Europeia, agora presidida por Jean-Claude Juncker, encarregou o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças de reunir toda a informação necessária sobre o assunto e propor a aplicação das medidas necessárias.
A Europa e a Organização Mundial de Saúde preocupam-se pois com o gravíssimo problema de saúde pública com que Portugal está confrontado, mas as autoridades portuguesas, sobretudo esse sinistro homúnculo que é director-geral da saúde e dá pelo nome de Francisco George, só têm uma única preocupação, que é a de subestimar e ocultar o significado e importância do surto da doença, em vez de a combater e eliminar.
George, conjuntamente com o ministro da saúde Paulo Macedo, passa horas na televisão a manipular e esconder números, tentando incutir na opinião pública a estúpida ideia de que o terceiro maior surto mundial de sempre da doença do legionário, já com tantos mortos como cada um dos dois primeiros surtos, não é coisa com que nos devamos preocupar.
Como não devemos pois preocupar-nos com uma doença que já infectou mais de trezentas pessoas em menos de uma semana, já matou nove delas e não há ainda nenhuma garantia de que tenham sido detectados todos os focos de onde surgiu o surto infecioso, aliás sempre em crescimento acelerado?
Como não haveriam de preocupar-se com um quadro tão sinistro as famílias que já perderam os seus entes queridos, as famílias dos quarenta doentes graves, alguns às portas da morte, internados nos cuidados intensivos hospitalares, as famílias dos já infectados e, ao fim e ao cabo, todas as famílias que vivem nos municípios de Vila Franca de Xira, de Loures e de Lisboa.
Não se consegue alcançar como é que George, que até já experienciou pessoalmente uma tragédia familiar grave, tem contudo a suprema crueldade de pedir às famílias daqueles municípios que não se preocupem com o presente surto epidemiológico? E que tente descontraí-los com a promessa de contenção do surto infecioso às três freguesias do município vila-franquense, quando sabe muito bem, porque até está escarrapachado no sítio informático do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, que a bactéria legionella pneumophila já foi encontrada dentro de uma gotícula de água a catorze quilómetros do seu foco infeccioso.
O director-geral da saúde e o ministro do sector deveriam mas era alertar as populações de todo o município de Vila Franca e dos municípios vizinhos para a forte probabilidade de virem a ser infectados até, pelo menos, à distância de catorze quilómetros dos focos já conhecidos: Centralcer, na Vialonga; Solvay, na Póvoa de Santa Iria; e a ADP-Fertilizantes, em Alverca. É só marcar com um compasso na carta geográfica adequada os círculos com raio de catorze quilómetros e centro em cada uma daquelas empresas, para verificar com os próprios olhos a enorme área ocupada pela população em risco de ser infectada.
E há ainda muitos possíveis focos a examinar, sem esquecer o da torre de refrigeração da Central de Tratamento de Resíduos Sólidos Urbanos da Valorsul, em São João da Talha, como ontem reclamámos.
George manipula também os números que vem difundir através dos órgãos de comunicação social, porque, em vez de elaborar um gráfico com o número de novos infectados em cada dia – o que, até ao dia de ontem, dia 12 de Novembro, mostraria que todos os dias cresce a quantidade de infectados, relativamente ao dia anterior – vem estabelecer uma proporção entre o número diário de novos infectados e a totalidade de infectados até esse mesmo dia, o que produz uma proporção diariamente decrescente para quantidades diariamente crescentes.
George é um analfabeto, armado em espertalhão!... O governo paga bem a um vira- -casacas como George. Como em Portugal o forte das massas não é obviamente a matemática, torna-se fácil a um cretino como George transformar uma série quantitativamente crescente de doentes numa série percentualmente decrescente da doença…
George prepara ainda uma outra manobra: demonstrar que um infectado com o bacilo da legionella pneumophila, no mais grave dos quadros clínicos da doença, não morre de legionelose, isto é, da doença do legionário, mas de outra doença qualquer, o que é fácil porquanto quase toda a gente morre de paragem cardíaca…
Esta manobra manipulatória é vital para a sobrevivência política de George, visto que o nosso homunculozinho terá algum dia de explicar por que é que, sendo o surto português de legionela o terceiro maior do mundo, ultrapassa todavia em número de mortos cada um dos outros dois maiores surtos. Está-se mesmo a ver que, a partir de agora, se houver mais mortes neste surto e oxalá não haja, os doentes vão deixar de morrer da doença do legionário para passarem a morrer de doenças de coração…
Os meus dilectos leitores, como decerto têm estado muito atentos a tudo quanto nestes dias ocorre relacionado com o actual surto de legionela, devem-se ter apercebido do frenesi com que o primeiro-ministro e o ministro do ambiente vieram a terreiro proclamar que o governo não tinha qualquer responsabilidade neste descomunal surto de legionella, ainda antes que alguém tivesse arregaçado as mangas – como aqui o fazemos – para imputar ao governo a responsabilidade política e criminal pela eclosão do surto da doença no município de Vila Franca de Xira e pela morte de nove concidadãos infectados.
Viu-se já como a Organização Mundial de Saúde qualifica o surto epidémico português da legionela como uma grande emergência de saúde pública e se disponibilizou para imediatamente vir ajudar-nos.
Ora, a pergunta crucial agora é esta: quem é que é responsável por esta grande emergência de saúde pública mundial?
Na terça-feira passada, no Porto, onde o esperava a habitual vaia monumental, Passos Coelho adiantou-se às perguntas da imprensa sobre o surto de legionela, descartando toda e qualquer negligência por parte do governo no surto da doença.
Mas não é verdade! A inteira responsabilidade do actual surto colossal da doença deve-se única e exclusivamente a que o governo de traição nacional Coelho/Portas, em submissão crónica ao Memorando de Entendimento e com capitulação total perante a Tróica, substituiu por outra a legislação em vigor até 2013, despediu os funcionários encarregados da prevenção em espaços fechados - escolas, institutos, hospitais, edifícios públicos, empresas e unidades fabris - das infecções por legionela.
Desapareceu a fiscalização preventiva levada a cabo pelo Estado sobre a doença do legionário.
O controlo e prevenção passaram a ser incumbência dos próprios visados, mas sem fiscalização activa do Estado.
E só por isso se chega a esta situação de, numa distância inferior a cinco quilómetros, acharem-se todas as torres de refrigeração de três unidades fabris – Centralcer, Solvay e ADP – a fervilhar de legionella pneumophila e a despachá-la para cima de uma população inocente e desinformada.
A alteração da legislação anterior a 2013, sem nada se ter criado para substituir os órgãos de fiscalização e controlo até aí existentes, eis onde reside a responsabilidade do governo pelo crime ambiental, pelos crimes de homicídio, pelos crimes de ofensas corporais e pelos incalculáveis prejuízos de que foi vítima a população de Vila Franca de Xira.
Este é mais um conjunto de crimes de lesa-pátria e de lesa-povo, perpetrado por um governo de traidores, como é o governo do PSD/CDS, apoiado por um incompetente que é presidente da República.
Há, não obstante, que restaurar todos os meios e todas as equipas de vistoria e de prevenção existentes até 2013, para vistoriar imediatamente todos os locais e espaços do País que ficaram abandonados, a fim de garantir que novos e incontroláveis surtos de legionela não dispararão, mortíferos, de norte a sul e de leste a oeste de Portugal.
Espártaco
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