Caos na educação: os bastidores dos exames nacionais
Com o mês de Junho chega o fim do ano lectivo, e com ele chegam também os exames nacionais do secundário para os alunos do 11º e do 12º ano. Para a esmagadora maioria dos estudantes, as poucas horas de que despendem para a realização dos exames acabam por valer o mesmo que todo o seu percurso no ensino secundário. Poucas horas que contam tanto quanto três anos e que determinam o futuro de um jovem.
No entanto, este ano, há uma novidade: todas as provas vão ser digitalizadas e enviadas em formato digital para os professores correctores. Este modelo foi testado no ano passado no exame nacional de filosofia, mas será pela primeira vez adoptado para todos os exames este ano, à excepção dos de desenho e de geometria descritiva. Os alunos continuam a escrever em papel, com alterações menores nas folhas de respostas de modo a facilitar a digitalização. Contudo, ao invés de recolherem as provas na sede de exames e começarem prontamente a sua correcção, os professores têm de esperar pela digitalização das centenas de milhares de testes para que lhes sejam atribuídas as credenciais de acesso à plataforma informática na qual vão corrigir as respostas. Outra novidade é a correcção de perguntas soltas. Contrariamente aos anos anteriores, onde um exame era corrigido e cotado na sua íntegra por um só professor, cada corrector passará a corrigir apenas um item de cada aluno e os itens de selecção serão automaticamente cotados pelo sistema.
É evidente que uma operação de tal escala levanta problemas e preocupações logísticas, principalmente tendo em conta a incompetência do nosso Ministério da Educação “reestruturado”, que avança na deterioração deste serviço público cada vez mais mutilado. Não se surpreendeu, pois, ninguém ao saber do caos instalado nos exames nacionais. A distribuição das credenciais de acesso aos exames de português estava agendada para dia 23 de Junho, terça-feira. Passado este prazo, os professores continuavam sem acesso a absolutamente nada e o ministério em silêncio. Nem exames, nem explicação. Foi só passado uns dias que se dignaram anunciar falhas e a reconhecer o atraso. Parece que será só a partir do dia 29, segunda-feira, que os professores começarão então a receber “gradualmente” as respostas. Face a isto, o prazo final de correcção manter-se-á no dia 10 de Julho.
Como se isto não fosse já suficiente, as situações caricatas multiplicam-se. Desde professores chamados a corrigir disciplinas que não leccionam ou em escolas onde já não trabalham, até, imagine-se, professores reformados convocados para corrigir exames! Isto para não falar dos erros na digitalização, havendo já relatos alarmantes de páginas em falta e respostas incompletas. A desordem e o desleixo do ministério revelou-se de novo com a polémica que se levantou relativamente ao exercício de produção escrita do exame de português, que é por sinal aquele com mais peso em toda a prova (quarenta e quatro pontos de duzentos). Está em causa um exercício, onde se pede uma apreciação crítica de um cartoon, que apareceu também num manual de apoio para o exame. Este tipo de manuais servem como elementos de estudo e de preparação para alguns alunos que os adquiram, replicando exercícios semelhantes aos dos exames. No entanto, um exercício de exame exactamente igual ao de um manual é algo completamente inédito e absurdo, e é claro que esta situação colocou em desvantagem uma esmagadora maioria que não teve acesso ao cartoon de antemão.
A tudo isto, soma-se uma preocupação, já habitual, no que toca a um certo facilitismo que os professores e a comunidade escolar têm vindo a denunciar. Ao longo dos anos, os exames têm sofrido alterações que, em norma, diminuem o seu grau de exigência ou pelo menos facilitam a subida das médias.
Neste sentido surgem medidas no que toca à estrutura das provas como o aumento do peso de perguntas de resposta fechada e a criação das perguntas opcionais (um conjunto de questões às quais o aluno responde na totalidade mas em que apenas as melhores são consideradas). No exame de português, por exemplo, uma escolha múltipla vale hoje exactamente o mesmo que um texto expositivo ou uma pergunta de interpretação.
Este esforço por parte do EduQA (antigo IAVE) pode parecer facilitar a vida aos alunos e tem de facto gerado uma subida das médias, mas significa estar a nivelar por baixo a qualidade do ensino no país. Por trás disto estão muitas vezes rankings e avaliações internacionais de desempenho escolar, às quais os governos burgueses procuram pomposamente responder de forma matreira e fraudulenta. Mas sabemos que a verdadeira escola se importa com a aprendizagem real e efectiva fomentando o pensamento, ao invés de priorizar resultados quantitativos de alunos formatados. E os exames nacionais são o apogeu desta escola velha que devemos combater.
Por último, vale ainda a pena relembrar o estado de total injustiça e desigualdade em que são realizados os exames. Nos rankings de escolas consoante as médias, a primeira escola pública só surge perto da quadragésima posição. A verdade é que há inúmeros factores que condicionam as classificações. Quem tem condições de pagar explicações está automaticamente em vantagem, tendo um acompanhamento próximo e personalizado que a escola falha em oferecer. As condições materiais nas salas onde se realizam os exames podem ter também um impacto surpreendentemente significativo no desempenho de um aluno, principalmente tendo em conta as ondas de calor que se fazem sentir no Verão. O aluno cuja família consegue pagar colégios, com turmas menores e mais professores, é avaliado nos mesmos moldes inflexíveis que o aluno pobre. E aqueles com mais poder de compra estão munidos de manuais e materiais de preparação (que neste ano se mostraram excepcionalmente úteis). E as injustiças eternizam-se. Não é por acaso que apenas um número reduzido dos que são todos os anos colocados no ensino superior beneficiam de acção social, especialmente quando olhamos para o escalão A. Os estudantes estão cientes das injustiças e falhas que assolam o ensino, e da degradação contínua a que o sistema condena a vida académica, também no secundário. Cabe agora aos comunistas organizar e esclarecer, pelo derrube dos governos burgueses e pela edificação da Escola Democrática e Popular!
FF

Caos na educação: os bastidores dos exames nacionais
Com o mês de Junho chega o fim do ano lectivo, e com ele chegam também os exames nacionais do secundário para os alunos do 11º e do 12º ano. Para a esmagadora maioria dos estudantes, as poucas horas de que despendem para a realização dos exames acabam por valer o mesmo que todo o seu percurso no ensino secundário. Poucas horas que contam tanto quanto três anos e que determinam o futuro de um jovem.
No entanto, este ano, há uma novidade: todas as provas vão ser digitalizadas e enviadas em formato digital para os professores correctores. Este modelo foi testado no ano passado no exame nacional de filosofia, mas será pela primeira vez adoptado para todos os exames este ano, à excepção dos de desenho e de geometria descritiva. Os alunos continuam a escrever em papel, com alterações menores nas folhas de respostas de modo a facilitar a digitalização. Contudo, ao invés de recolherem as provas na sede de exames e começarem prontamente a sua correcção, os professores têm de esperar pela digitalização das centenas de milhares de testes para que lhes sejam atribuídas as credenciais de acesso à plataforma informática na qual vão corrigir as respostas. Outra novidade é a correcção de perguntas soltas. Contrariamente aos anos anteriores, onde um exame era corrigido e cotado na sua íntegra por um só professor, cada corrector passará a corrigir apenas um item de cada aluno e os itens de selecção serão automaticamente cotados pelo sistema.
É evidente que uma operação de tal escala levanta problemas e preocupações logísticas, principalmente tendo em conta a incompetência do nosso Ministério da Educação “reestruturado”, que avança na deterioração deste serviço público cada vez mais mutilado. Não se surpreendeu, pois, ninguém ao saber do caos instalado nos exames nacionais. A distribuição das credenciais de acesso aos exames de português estava agendada para dia 23 de Junho, terça-feira. Passado este prazo, os professores continuavam sem acesso a absolutamente nada e o ministério em silêncio. Nem exames, nem explicação. Foi só passado uns dias que se dignaram anunciar falhas e a reconhecer o atraso. Parece que será só a partir do dia 29, segunda-feira, que os professores começarão então a receber “gradualmente” as respostas. Face a isto, o prazo final de correcção manter-se-á no dia 10 de Julho.
Como se isto não fosse já suficiente, as situações caricatas multiplicam-se. Desde professores chamados a corrigir disciplinas que não leccionam ou em escolas onde já não trabalham, até, imagine-se, professores reformados convocados para corrigir exames! Isto para não falar dos erros na digitalização, havendo já relatos alarmantes de páginas em falta e respostas incompletas. A desordem e o desleixo do ministério revelou-se de novo com a polémica que se levantou relativamente ao exercício de produção escrita do exame de português, que é por sinal aquele com mais peso em toda a prova (quarenta e quatro pontos de duzentos). Está em causa um exercício, onde se pede uma apreciação crítica de um cartoon, que apareceu também num manual de apoio para o exame. Este tipo de manuais servem como elementos de estudo e de preparação para alguns alunos que os adquiram, replicando exercícios semelhantes aos dos exames. No entanto, um exercício de exame exactamente igual ao de um manual é algo completamente inédito e absurdo, e é claro que esta situação colocou em desvantagem uma esmagadora maioria que não teve acesso ao cartoon de antemão.
A tudo isto, soma-se uma preocupação, já habitual, no que toca a um certo facilitismo que os professores e a comunidade escolar têm vindo a denunciar. Ao longo dos anos, os exames têm sofrido alterações que, em norma, diminuem o seu grau de exigência ou pelo menos facilitam a subida das médias.
Neste sentido surgem medidas no que toca à estrutura das provas como o aumento do peso de perguntas de resposta fechada e a criação das perguntas opcionais (um conjunto de questões às quais o aluno responde na totalidade mas em que apenas as melhores são consideradas). No exame de português, por exemplo, uma escolha múltipla vale hoje exactamente o mesmo que um texto expositivo ou uma pergunta de interpretação.
Este esforço por parte do EduQA (antigo IAVE) pode parecer facilitar a vida aos alunos e tem de facto gerado uma subida das médias, mas significa estar a nivelar por baixo a qualidade do ensino no país. Por trás disto estão muitas vezes rankings e avaliações internacionais de desempenho escolar, às quais os governos burgueses procuram pomposamente responder de forma matreira e fraudulenta. Mas sabemos que a verdadeira escola se importa com a aprendizagem real e efectiva fomentando o pensamento, ao invés de priorizar resultados quantitativos de alunos formatados. E os exames nacionais são o apogeu desta escola velha que devemos combater.
Por último, vale ainda a pena relembrar o estado de total injustiça e desigualdade em que são realizados os exames. Nos rankings de escolas consoante as médias, a primeira escola pública só surge perto da quadragésima posição. A verdade é que há inúmeros factores que condicionam as classificações. Quem tem condições de pagar explicações está automaticamente em vantagem, tendo um acompanhamento próximo e personalizado que a escola falha em oferecer. As condições materiais nas salas onde se realizam os exames podem ter também um impacto surpreendentemente significativo no desempenho de um aluno, principalmente tendo em conta as ondas de calor que se fazem sentir no Verão. O aluno cuja família consegue pagar colégios, com turmas menores e mais professores, é avaliado nos mesmos moldes inflexíveis que o aluno pobre. E aqueles com mais poder de compra estão munidos de manuais e materiais de preparação (que neste ano se mostraram excepcionalmente úteis). E as injustiças eternizam-se. Não é por acaso que apenas um número reduzido dos que são todos os anos colocados no ensino superior beneficiam de acção social, especialmente quando olhamos para o escalão A. Os estudantes estão cientes das injustiças e falhas que assolam o ensino, e da degradação contínua a que o sistema condena a vida académica, também no secundário. Cabe agora aos comunistas organizar e esclarecer, pelo derrube dos governos burgueses e pela edificação da Escola Democrática e Popular!
F.F.