PAÍS

Entrevista ao camarada Eanes

Luta Popular - Em Abril deste ano foi refundada a Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas. O que esteve na origem desta decisão e que necessidade política e organizativa vem responder a refundação da FEM-L no actual momento?

Eanes - Com o crescimento do partido em si, começaram a entrar mais pessoas de idades mais jovens e que, consequentemente, eram estudantes, uns estudantes do ensino superior, outros do ensino secundário. Com essa afluência e com o partido num estado de crescimento significativo viu-se a necessidade de criar essa ala estudantil, para dessa forma se conseguir englobar essas pessoas todas que tinham entrado, com uma luta mais comum, que lhes dizia mais, porque eles estando a estudar vêem esses problemas de forma mais directa e não tanto os problema do mundo dos operários ou dos membros do proletariado.

Mesmo na própria situação estudantil em Portugal, basta ver quais são os grupos, vamos pôr dessa forma, que dizem representar os estudantes. Ou são grupos completamente degenerados ao revisionismo, afectos aos social-fascistas que fazem lutas meramente performativas para cair nas boas graças dos estudantes que dizem representar, ou outras organizações que, não sendo social-fascistas, são de outras vertentes igualmente nocivas ao movimento estudantil, fazendo suas acções também para ganhar a confiança dos estudantes. Uns ou para depois levá-los ao próprio partido que eles representam, quando esses grupos estão ligados a partidos, ou só mesmo para conseguirem continuar a estar sentadinhos lá nas associações de estudantes, em lugares que são mais confortáveis e que no fundo têm acções igualmente performativas. Tendo esta situação em conta, é clara a necessidade da Federação. É preciso uma federação que encabeça a luta dos estudantes de forma séria, com marxismo-leninismo como sua base teórico-prática, que consiga guiar os estudantes de forma eficaz para os seus objectivos.

Luta Popular - A FEM-L tem uma importante história no movimento estudantil português, particularmente na luta contra o fascismo e no período revolucionário. Que significado tem, para a organização que hoje se constrói, recuperar esta experiência histórica e que ensinamentos procuram retirar dela para a luta estudantil actual?

Eanes - Obviamente que os períodos mais emblemáticos da Federação são no fascismo e no período revolucionário em 75. Esses acontecimentos e a forma como eles foram abordados pela Federação na altura, foram da forma correcta e é mesmo por isso que não há nada que agora nós tenhamos de analisar e dizer: "Sim, isto tem de ser posto para o lixo." Não, as coisas foram feitas da forma correcta, as coisas têm de ser emuladas actualmente. Obviamente, com as características que há hoje, com os números que temos hoje e com os problemas, pronto, que há hoje. 

Mas, no cerne é tudo, é todo o mesmo objectivo. Não vale a pena fazermos como certos grupos e outros que tentam se reinventar para estarem mais, mais, digamos, liberalizados, para que a burguesia olhe para eles de forma mais "fofinha", porque não são uma ameaça para eles. Nós queremos ser e somos uma ameaça à burguesia, nós temos de manter as mesmas tácticas que nós usamos historicamente para derrotar a burguesia, independentemente se foi uma burguesia que defendia o fascismo ou uma burguesia que queria travar um processo revolucionário.                   

Luta Popular - E em que parte... Porque não construir uma organização nova? Porquê manter a histórica da Federação e o que é que é importante na história da Federação?                                                       

Eanes - Bem, a Federação, além das inúmeras acções que tem em seu nome e que se carrega, obviamente, às costas quando se tem este nome, carrega também, Alexandrino de Sousa e Ribeiro Santos, 2 mártires, um contra o fascismo e outro contra o social-fascismo, que não podem ser deixados morrer. Se não há uma única organização que pegue neles, qual outra senão aqueles que pertenciam? Não faz sentido nenhum tentar criar uma organização nova, quando já aqui está uma com anos de história, em acção e com mártires. Tentar fazer algo novo é mandá-los para o lixo, é simplesmente uma traição daquilo que eles representavam.

Luta Popular - O I Encontro Nacional constitui um momento central neste processo de refundação. Quais são os seus principais objectivos e que importância assume na definição da orientação política e da estrutura da nova FEM-L?

Eanes -
 Com este encontro nacional, a Federação procura estar mais coesa, procura conseguir enforçar um plano de acção, as suas bases, para que estas sejam emuladas em todas as formas, em todos os seus núcleos e em todos os locais do país. E também para que os militantes que estão fora de Lisboa, que é onde se constitui o núcleo mais forte neste momento, consigam também entranhar-se melhor no sentido de ver que as coisas estão a acontecer, como é que elas acontecem fora do núcleo em que estão, porque obviamente eles têm que fazer trabalho de lá.

Até ao Congresso da Federação, que é obrigatoriamente após o Congresso do Partido, tem de haver essa tal linha de acção, tem de haver uma coesão que consiga levar a cabo as acções da Federação. E este encontro nacional serve, obviamente, para isso, para que essa linha exista e para que essa, essa direcção também exista, porque senão a Federação vai ficar parada e isso não pode acontecer.

Luta Popular - Que questões fundamentais estarão em discussão no I Encontro Nacional? Em particular, que análise fazem da situação actual dos estudantes e quais consideram ser hoje os principais problemas contra os quais é necessário organizar a luta?

Eanes - No Encontro Nacional vai estar em discussão as bases da Federação. O que é a Escola Democrática Popular, qual é a conduta que os militantes da Federação devem ter, como é que o social-fascismo se apodera das associações de estudantes, bem como o fascismo e porque é que nós somos a organização correcta, a necessidade dos estudantes estarem ao serviço da classe operária, o porquê, qual é que é a necessidade histórica e o estudo, a sua importância e como é que ele deve ser feito. Isso é a parte que vai estar em discussão.

Além disso, vai ser aprovada uma comissão directiva que vai “guiar” as acções da federação até ao seu congresso onde o comité central será então decidido. 

Há vários problemas hoje em dia que afectam os estudantes. A impossibilidade dos estudantes estudarem onde querem, independentemente se tenham entrado ou não, dada a falta de alojamentos e os alojamentos que existem, pronto, são extremamente caros, não dando oportunidade à esmagadora maioria dos estudantes de conseguirem estudar, ficando eles ou muitas vezes em universidades mais perto que não têm a qualidade ou o curso que eles gostariam que tivessem, ou mesmo até serem obrigados a optar por outras, por outras, por outras vias que não sejam aquelas que queiram, como de ter de ir trabalhar e não conseguindo logo estudar. 

Obviamente, também o mercado de trabalho hoje em dia que os estudantes irão apanhar vai ser muito mais agressivo, no sentido que não vão ter a mesma facilidade que os seus pais, avós, até mesmo os avós e até mesmo irmãos mais velhos que tiveram no fim dos seus cursos. A própria vida a seguir a estudar não vai ser a mesma e isso obviamente já afecta o estudante hoje em dia, porque ele tem de se preparar para tal. E a preparação para tal não é a mesma que foi feita há 40 anos, porque obviamente não é a mesma realidade. 

E com base nisto tudo, estes estudantes, obviamente, mais preparados que os seus pais, dadas as condições que têm e com os materiais que temos para pesquisar e para estudo, vão ficar em situações muito problemáticas e procuram já lutar contra isso hoje em dia. E essas organizações que já foram obviamente denunciadas na primeira parte, pegam neles, não fazem nada com eles, metem-nos em lutas meramente performativas, com fins propagandísticos partidários, muitas vezes, ou com fins simplesmente de segurar posições que são confortáveis, ou dentro das associações de estudantes, ou mesmo dentro dos próprios partidos, quando eles são ligados a tais.

Luta Popular - A FEM-L afirma-se como uma organização marxista-leninista. Como se traduz essa orientação na sua intervenção concreta no movimento estudantil e que relação entendem que deve existir entre a luta dos estudantes e a luta da classe operária?

Eanes - A Federação, dizendo-se marxista-leninista, está obviamente organizada de forma leninista, sobre o princípio do centralismo democrático. Sendo esta também uma extensão do partido que engloba, o PCTP/MRPP. Isto porque a federação não pode estar separada de um partido de vanguarda do proletariado. E porquê? Porque só assim é que as massas conseguem se organizar e lutar de forma efectiva contra a burguesia, contra todo o seu aparato efectivamente. E nós, fazendo parte da federação, temos de estar sobre a regência desse partido, porque os estudantes não estando em contacto com o capital, têm que se submeter aos interesses históricos da classe operária, porque são estes interesses que levam a cabo a construção do modo de produção comunista, bem como todo o seu futuro aparato. 

Luta Popular - Que organização estudantil pretendem construir depois do I Encontro Nacional? Que papel querem desempenhar nas escolas, universidades e institutos e como pretendem aproximar e organizar os estudantes que hoje não estão politicamente mobilizados?

Eanes - A Federação procura ocupar um espaço que não existe actualmente no movimento estudantil. É obviamente uma federação regida pelo Marxismo-Leninismo e que pretende encaminhar os estudantes para a luta de classes, para quando mais tarde já formados e empregados, se dediquem inteiramente a travar a luta de classes. Para isso a FEM-L tem obrigatoriamente de continuar as acções que tem vindo a desenvolver desde que foi reerguida, como distribuições, dias abertos para falar directamente com os estudantes – esta é também uma das formas de podermos falar com os estudantes que ainda não estão politicamente muito desenvolvidos, que procuram estar mas não sabem como – até mesmo estudarem, em sessões de estudo abertas para estarem mais dentro do assunto, perceberem o que é que se passa, perceberem como é que podem lutar contra aquilo que os atinge no dia-a-dia, mas também fazer as nossas próprias listas, abertamente, listas abertamente da federação. Listas que não têm medo de assumir a sua ligação com a federação ao contrário das outras que mesmo quase completamente infiltradas, têm medo de assumir que estão ligadas aos social-fascistas. Não faremos uma lista só para mostrar, faremos uma lista com o objectivo de ganhar, mas uma lista para mostrar a todos os estudantes que já têm consciência política mas não têm contacto com a federação – não sabem que a federação tem actividade para nela se poderem integrar, mas também para, mesmo que se essa lista perder, continue a ter acção dentro da faculdade, não oficialmente, porque a lista perde, mas como um núcleo da federação dentro dessa faculdade, para responder aos problemas directos daquela faculdade e, obviamente, dos cursos em que cada membro da federação está.

Luta Popular - Que perspectivas e tarefas saem do I Encontro Nacional para a FEM-L? E que mensagem gostariam de deixar aos estudantes que tomam agora contacto com a Federação e com a sua proposta política?

Eanes - As resoluções que serão aprovadas no encontro nacional são obviamente aquelas referentes às bases da federação, são as bases ideológicas e práticas da federação, que eu já enumerei, e também a eleição da comissão directiva, tendo a federação até agora funcionado com uma comissão directiva provisória. E, estas são as medidas que vão ser tomadas e enforçadas logo no dia seguinte por parte da federação. Será esse corpo directivo a dirigir a federação e serão estas as bases que essa direcção irá enforçar a todos os militantes, os militantes vão aceitar porque têm de aceitar. Todos os membros da federação terão de enforçar também. É, a todos os estudantes que conhecem a FEML, têm contacto com a FEML, mas que não entram ainda dentro da federação, a mensagem que deve ser dada a essas pessoas, é de que se esses não entrarem num grupo de estudantes regidos sobre o marxismo-leninismo, regidos com o objectivo da construção de uma revolução comunista e todas as outras formas de seu aparato, não vão conseguir melhorar a situação onde estão actualmente, não vão conseguir lutar contra os seus opressores e continuarão com os mesmos problemas e seus filhos ainda, provavelmente, terão problemas ainda mais fortes. Àqueles que ainda não conhecem a federação e gostavam de conhecer, no sentido que ainda não têm contacto com ela de todo ou contacto com aquilo que a federação defende, a única coisa que nós temos a afirmar é de que eles devem entranhar todas as acções da federação, as acções abertas, aquelas que são mesmo feitas para eles, para que eles consigam ter um nível de conhecimento político e ideológico, que consigam lutar contra também os seus opressores, contra a burguesia, para que assim consigam melhorar as suas condições materiais e que sejam capazes de lutar pela uma revolução comunista.