Partido

Resposta a um Camarada do Norte

Vou tratar-te por tu, sendo certo que, em mim, esta forma de tratamento é necessariamente recíproca. Gostei do teu e-mail de ontem, e não me perguntes por que é que gostei de um texto de que parcialmente discordo. Acho que é por me ter caído no meio de uma saturação enorme de dezenas de respostas a cartas e e-mails a que me vejo forçado nestes dias.

O teu e-mail desanuviou-me o espírito.

Quando acabei de escrever o editorial A Classe Operária e o Momento Político Actual, fiquei logo a pensar naqueles meus leitores – como tu, afinal! – que, depois de me lerem, haveriam de exclamar: tá, bem, Velho! Mas não seria melhor que ao menos mudassem as caras?

Sim! Por uma questão de higiene mental, talvez fosse mais saudável passar a ver nos órgãos de comunicação social as caras dos boys do PS, e até certo ponto do PCP e do Bloco, do que as repelentes fúcias dos cretinos do PSD e do CDS.

Mas atenção, meu querido amigo: os capitalistas conhecem bem a saturação psicológica que as caras dos seus lacaios no governo provocam nos explorados e oprimidos e, por isso, são eles próprios a recorrerem à mudança de farsantes, para poderem prolongar a farsa com maior eficácia.

Quando Cavaco convoca Passos Coelho e o manda andar por aí à procura de um partido que lhe traga a maioria absoluta no Parlamento, no fundo o que Cavaco lhe pretende dizer é isso: traz caras novas, novos boys, para podermos continuar com a mesma política de terrorismo austeritário.

É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma, como ensinava Tomás de Lampedusa no seu magnífico Leopardo.

Claro que se os capitalistas conseguirem pôr o PS, com as bengalas e caras do PCP e do Bloco, a aplicar a mesma política da coligação de Passos e de Portas, a classe média e até uns quantos operários terão, durante algum tempo, a sensação psicológica de que tudo mudou para melhor, até que, se fizerem bem as contas e após a higiene decúbito-mental das caras dos novos boys, compreenderão Lampedusa e verão que continuam desempregados, ou com trabalho precário, com salários cortados, despedimentos sem justa causa, mais horas de trabalho não pago, salários em atraso, aumento de impostos, taxas moderadoras e medicamentos cada vez mais caros, rendas cada vez mais altas, ou seja, não está tudo na mesma, como profetizava o escritor italiano, mas muito pior que na mesma.

Mas isto já tu sabes de Lampedusa e do seu Gattopardo, obrigatoriamente, porque tens a idade e a licenciatura do meu Filho e o divino Tommaso não vos pode ser estranho.

Mas a questão da mudança de boys e de caras, não é para ti uma questão de higiene mental. É que no fundo, tu tens a bailar-te no cérebro a ideia de que o PS não pode ser pior do que a coligação de direita e de extrema-direita.

Tu dirás porventura isso, porque não és grego nem francês, porque se foras heleno ou gaulês saberias, na tua própria pele, que o socialista François Hollande é pior e está mais à direita do que o quase fascista Nicolas Sarkozy, assim como o socialista Pasok é pior e desapareceu já à direita da Nova Democracia. Dá-se até o caso de que na Grécia, o Bloco de Esquerda lá do sítio, que dá pelo nome de Syriza, já está à direita não do Pasok mas da Nova Democracia.

Em Portugal, há cinco partidos do Euro: CDS, PSD, PS, Bloco e PCP. Se estiverem no poder, sozinhos ou acompanhados, têm todos a mesma política fundamental: a política da Tróica.

E quanto às tuas ilusões sub-conscientes no PS, só posso dizer que o PS, seja aliado ao PSD/CDS, seja aliado ao PCP e ao Bloco, aplicará sempre a política de Bruxelas, da Europa alemã, do capitalismo germânico, de Ângela Merkel e de Schäuble, dos credores estrangeiros, da Tróica. Claro… com caras novas, diferentes das caras que nos esmifraram durante estes últimos quatro anos, mas a mesmíssima política.

Vou-me despedir de ti, comungando contigo num ponto: sim, se alguns dos nossos candidatos fossem eleitos, eu emigrava…

Até à próxima,

13.10.2015

A. M.




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