A ESQUERDA E O 25 DE ABRIL (1ª parte)

Transcrição, da responsabilidade da redacção do Luta Popular, da intervenção do camarada Arnaldo Matos na Conferência/Debate realizada na Casa Álvaro Campos em Tavira, dia 17 de Abril de 2009.

Como os senhores sabem, eu sou uma espécie de comunista em prisão domiciliária, quer dizer, não tenho tempo para me dedicar à vida política activa continuamente, em todos os dias e a todas as horas. É uma pena para mim, mas é, talvez, um alívio para vós.
Nós vivemos num país cheio de singularidades: nós somos uma nação muito antiga, já éramos uma nação talvez no séc. IX, fins do séc. IX; somos um estado velho, esse estado já existia no séc. XI; temos a fronteira mais antiga do mundo como estado independente porque é, com a pequena excepção ainda não resolvida de Olivença, uma fronteira que vem desde o tratado de Alcañices, celebrado no séc. XIII; somos um povo unitário, isto é, não temos nenhuma etnia diferente da etnia que é dominante; somos um povo que lutou e tem uma noção da independência que nunca o abandonou em circunstância alguma; temos uma cultura única; até tivemos, durante muito tempo, uma só religião, e estas singularidades fizeram do nosso país, um país também cheio de futuro, não apenas de passado.
A partir do séc. XVII, (interiorizou-se no interior do…) interiorizou-se no cérebro dos portugueses, como povo, a ideia de que o que tinham a fazer já tinham feito, e que não havia mais nada a fazer a não ser carpir-se das suas mágoas. Estes séculos todos tivemos três ou quatro excepções contra esta teoria geral: o marquês de Pombal, a regeneração do tempo do liberalismo, a república, e o 25 de Abril. Isto, para um povo que fez a primeira revolução capitalista do mundo, em 1385, é, de facto, qualquer coisa de notável que não tenha conseguido libertar-se de todos estes atavismos durante nove séculos.
O 25 de Abril é uma revolução. Os marxistas sabem, desde Marx, que a revolução é um acto pelo qual uma classe derruba outra classe. E o que aconteceu no 25 de Abril foi uma revolução política – isto é: um conjunto de classes derrubaram outra classe – e foi também uma revolução social ainda que de pequena envergadura.
A esquerda tem um papel antes e depois do 25 de Abril, aliás, tem um papel durante toda a história, mas há um ponto em que a esquerda se distingue de tudo o resto: (é…) são as três razões pelas quais o 25 de Abril foi assim e não podia ser, aliás, de outra maneira. O 25 de Abril fez-se sem praticamente derramar sangue, tirando o incidente que aconteceu com a ocupação da pide. Portanto é uma revolução que se faz sem ser preciso, aparentemente, pegar em armas. Esta realidade tem uma explicação e essa explicação divide a esquerda e a direita antes do 25 de Abril e depois do 25 de Abril.
A explicação é a seguinte, é que os que estudaram o marxismo e praticaram uma política marxista tendem sempre a considerar que uma revolução só se pode fazer quando há uma crise, isto é, nós vivemos agora num momento excelente para fazer uma revolução, numa crise profunda de todo o sistema, em todo o mundo e também em Portugal. Mas as revoluções não se fazem só nessas circunstâncias, também se fazem quando o movimento está em ascensão, como aconteceu precisamente no 25 de Abril.
As pessoas já não se lembram mas a década de 60 é a década de maior desenvolvimento económico em Portugal: nós chegámos a crescer, durante dois desses anos da década, acima de dois dígitos no produto interno bruto, e todos os anos crescemos, nessa década, mais que os mais avançados países europeus. A nossa taxa de crescimento era superior à de todos os países europeus.
Porque é que isto aconteceu? Aconteceu, muito simplesmente, porque este país, que tinha um sistema político autoritário, fascista, um sistema político onde a liberdade de expressão do pensamento, da formação de partidos, da cultura, onde não existiam liberdades, este país, digamos, (que) começou a andar por si mesmo, independentemente do que se passa dentro dos órgãos do poder.
E a maneira como começou a andar por si mesmo é curiosa. Este país começou a andar por si mesmo porque era pobre e as pessoas tiveram que emigrar. Em dez anos, nos dez anos, vá, de 1960 aos finais de 1970 saíram do país 1 600 000 pessoas, quer dizer, se considerarmos a população portuguesa que nessa altura não era sequer 10 milhões ainda, 15% da população dum ano desapareceu do país. Não desapareceu num ano, isto é, num ano em que tínhamos 10 milhões, se considerarmos tudo reduzido a um ano, nesse ano 15% da nossa população desapareceu.
Que consequências é que isto tem? Tem muitas consequências, já vamos ver.
A primeira é esta: se as pessoas desaparecem do país e vão procurar outros países, que países é que vão procurar? Vão procurar a Europa que estava a desenvolver-se depois da 2ª guerra mundial. Já não emigram para a Venezuela, já não emigram para os Estados Unidos da América, não emigram para África. Emigram para a Europa central: para a França, para a Alemanha, para esses países, fundamentalmente para esses países mais avançados onde vão obter um salário que é superior aos salários que obtinham em Portugal.
De repente, Portugal fica com menos um sétimo da sua população.
Por outro lado, nesta década de 60, nós temos também uma guerra, e essa guerra manteve permanentemente ocupada em actividades militares 2% da população – chegámos a ter à volta de 200 mil homens em armas, 200 mil homens, como sabem, são 2% da população. Isto é, durante dez anos, 2% da nossa população estão empregadas numa guerra. Portanto temos uma emigração, temos pessoas empregadas na guerra e temos pouca gente em Portugal para o desenvolvimento industrial.
Acontece que, neste ano também, fizemos o acordo de entrada, – aliás somos um dos países fundadores da EFTA – numa associação europeia de comércio livre que se opunha à Comunidade Económica Europeia. Esta associação económica de comércio livre, a EFTA, nós somos um dos membros fundadores, agrupa um conjunto de países que não têm nada que ver com os países da CEE, são a Inglaterra, a Irlanda, a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, à volta desses países, e Portugal.
Como nós tínhamos um salário baixo, muitas das indústrias modernas começam a aparecer em Portugal. É dessa altura que aparece tudo o que os senhores conhecem hoje: a indústria automóvel, a indústria de electrodomésticos, a indústria de televisores, tudo isso aparece nessa altura. E vai instalar-se aonde? Ora, como nós vamos produzir para exportar, e os nossos países exportadores estão todos à volta da Europa, nós vamos instalar as nossas unidades fabris novas junto do mar, não no interior do país, mas junto do mar para poderem ser exportadas não através de camiões mas através de navios. Isso tem uma consequência imediata é que a população que vem trabalhar larga os campos e vem para a cidade. O país balançou, despejou tudo o que tinha no campo para o urbanismo das cidades. O nosso país desfez-se, desfez-se… (com esta urbanização, claro). Um país que era rural e agrícola: lembre-se que em 1960, 60% de população portuguesa vivia da agricultura, da indústria,  da pesca e das minas. 60% da população portuguesa! E produzia 80%. Esses 60% produziam 80% do que nós comemos.
Sabem quanto é que produzem hoje? Produzem 20% do que nós comemos. Isto é, numa década, a de 60, o país que estava fundamentalmente empregado no sector primário, chega-se ao fim da década de 60 e aqueles 45% da população que estava no sector primário estava reduzida em menos 40%.
Coisa curiosa, Portugal é o único país da Europa em que a classe operária nunca foi maioritária, isto é, o sector secundário, o sector da indústria, nunca chegou a ocupar mais de 34% da população e hoje diminuiu, isto é, de 2000 para cá tem vindo a diminuir. Ora portanto, temos o sector, o sector secundário fundamentalmente a indústria, em que a nossa classe operária, uma classe operária toda nova, isto é, começou agora, nos anos 60, ou então velha, mas velha já sem conhecer o que é que se está a passar de novo. É a classe operária do Barreiro, da CUF, esse tipo de classe operária. Não é porque não presta, é porque eram velhos.
E de repente, um país que tinha, em 1960, tinha cerca de 20% do seu pessoal empregue no sector terciário, tem, actualmente, 70% das pessoas empregues no sector terciário. Quer dizer que Portugal passou de um país primário para um país terciário, sem nunca ter sido um país operário, sem nunca ter sido um país industrial. Isto tudo se passa na década de 60.
Ora bem, com emigração – havia também uma tropa – havia (muita gente) muitos homens ocupados. Quem é que vai ocupar o lugar dos homens na produção? Claro, as mulheres. Como toda a gente sabe, é nos anos 60 que as mulheres ocupam tudo aquilo que os homens tinham largado, tanto na indústria de guerra como no resto das outras indústrias. Só na classe operária é que a mulher não é hoje maioritária, porque em todos os sectores da produção a mulher é maioritária, excepto na classe operária. Há uma diferença à volta de cem mil pessoas a menos para as mulheres.
Mas, por exemplo, no sector terciário, a mulher ocupa hoje quase 80% do sector terciário. Toda esta revolução, isto é uma revolução silenciosa, (passa-se nos anos…) começa nos anos 60. Quando se chega a 1968, Portugal tem uma situação única na sua história: tem pleno emprego, isto é, ainda não tem desempregados quando faz o 25 de Abril.
Isto é uma coisa que nunca ninguém (se…) estuda, mas nós não temos desempregados quando fazemos o 25 de Abril. E mais, os salários tinham aumentado durante toda a década, e mais ainda, a parte do trabalho tem no rendimento nacional em 1974 é superior à parte que hoje o trabalho tem no rendimento nacional. Hoje, 35 anos depois. Esta década de 60 tem como consequência, portanto, a mobilização da mulher, a emigração, a guerra, e uma guerra que é colonial. Que caracteriza esta guerra colonial? Também uma coisa curiosa é que é o último império, este país pequeno, atrasado, primário, rural tem a última guerra colonial e defende o último império do Mundo. Defende este último império e defende-o com unhas e dentes.
Qual a estratégia que se adopta? Vejam como as coisas têm a sua importância, uma estratégia militar: onde é que se vai colocar as fábricas? isso tem um enorme significado! (onde se vai) como se vai fazer a guerra tem também um enorme significado! O que caracteriza a nossa guerra colonial é que os militares nunca tiveram uma cultura suficiente para pensar aquela guerra. Não estou a defender a guerra, fui contra ela e fi-la. Portanto não estou a defendê-la.

pctpmrpp

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