ROSA LUXEMBURGO - GREVE DE MASSAS PARTIDO E SINDICATOS (3 e 4)

Capítulos 1 e 2

Rosa Luxemburgo
GREVE DE MASSAS  PARTIDO E SINDICATOS

3

A greve de massas, como tema actual de discussão na Alemanha, é um fenómeno particular muito claro e muito simples de conceber, as suas limitações são precisas: trata-se unicamente da greve política de massas. Entende-se como tal uma arrancada maciça e única do proletariado industrial empreendida por ocasião dum acto político da maior importância com base num acordo recíproco estabelecido a esse propósito entre as direcções do Partido e dos Sindicatos, e que, conduzida na mais perfeita ordem e com espírito de disciplina, termine com uma ordem ainda mais perfeita, sob a palavra de ordem dada no momento oportuno pelos dirigentes, não esquecendo que a administração dos subsídios, as despesas, os sacrifícios, numa palavra, todo o balanço material, é determinado a priori com precisão.

Ora, comparando este esquema teórico com a greve de massas tal como se processa há cinco anos na Rússia, é-se levado a constatar que o conceito à volta do qual giram todas as discussões alemãs, não corresponde à realidade de nenhuma das numerosas greves de massas que se realizam e que, por outro lado, as greves de massas se apresentam na Rússia sob formas tão variadas que é absolutamente impossível falar de «a» greve de massas, de uma greve esquemática abstracta.

Não só cada elemento da greve de massas, mas também a sua particular característica, segundo as cidades e as regiões, e principalmente o seu próprio carácter geral, se modificaram com frequência no decorrer da revolução. As greves conheceram na Rússia uma certa evolução histórica e prosseguem-na ainda. Assim, quem queira falar de greve de massas na Rússia deve, antes de tudo, ter a sua história diante dos olhos. Inicia-se, justamente, o período actual, por assim dizer oficial, da revolução russa com a sublevação do proletariado de S. Petersburgo em 22 de Janeiro de 1905, esse desfile de 200 000 empregados diante do palácio do czar que terminou com um terrível massacre. A sangrenta fuzilaria de S. Petersburgo foi, como se sabe, o marco que desencadeou a primeira e gigantesca série de greves de massas; em poucos dias estenderam-se a toda a Rússia e fizeram ecoar a chamada à revolução por todos os cantos do Império, ganhando todas as camadas do proletariado.

Mas a sublevação de S. Petersburgo, em 22 de Janeiro, não foi mais que o ponto culminante de uma greve de massas que pusera em movimento todo o proletariado da capital czarista, em Janeiro de 1905. Por seu lado, a greve de Janeiro em S. Petersburgo foi a conse quência imediata da gigantesca greve geral que estalara pouco antes, em Dezembro de 1904, no Cáucaso, em Baku, e manteve suspensa toda a Rússia. Ora, os acontecimentos de Baku eram tão somente o último e poderoso eco das grandes greves que, em 1903 e 1904, quais tremores de terra periódicos, abalaram todo o sul da Rússia e cujo prólogo foi a greve de Batoum, no Cáucaso, em Março de 1902. No fundo, esta série de greves, na cadeia contínua das actuais erupções revolucionárias, somente dista da greve geral dos operários têxteis de S. Petersburgo, em 1896 e 1897, cinco ou seis anos. Pode pensar-se que alguns anos de aparente acalmia e de severa reacção separam o movimento de então, da revolução de hoje; mas se conhecermos um pouco da evolução política interna do proletariado russo, até ao estádio actual da sua consciência de classe e da sua energia revolucionária, não deixaremos de relacionar a história do presente período de lutas de massas com as greves gerais de S. Petersburgo. Estas são importantes no problema da greve de massas, visto que já contêm em germe todos os princípios elementares das greves posteriores. Em primeiro lugar, a greve geral de 1896 em S. Petersburgo surge como uma luta parcial reivindicativa, de objectivos puramente económicos. Foi provocada pelas intoleráveis condições de trabalho dos fiadores e tecelões de S. Petersburgo: dia de trabalho de 13, 14 e 15 h; salários à peça miseráveis; ao que se acrescenta toda uma série de vexames patronais. Contudo, os operários têxteis suportaram por muito tempo esta situação até ao momento em que um incidente de insignificância aparente ultrapassou a medida. Com efeito, em Maio de 1896, realizou-se a coroação do actual czar, Nicolau Il, diferida por dois anos com receio dos revolucionários; nesta ocasião, os donos das empresas manifestaram o seu zelo patriótico, impondo aos operários três dias de férias forçadas, recusando-se, além disso, a pagar-lhes salário nesses dias. Os operários têxteis, exasperados agitaram-se. Numa reunião que teve lugar no jardim de Ekaterinev, na qual participaram cerca de 300 operários entre os mais preparados politicamente, foram decididas e formuladas as seguintes reivindicações: 1.º — os dias da coroação deviam ser pagos; 2.º— horário reduzido para 10 h; 3.º — aumento de salários. Passava-se isto em 24 de Maio. Uma semana depois estavam fechadas as fiações e 40 000 operários em greve. Hoje, este acontecimento, comparado às vastas greves da revolução, pode parecer insignificante. Mas no clima de estagnação política da Rússia nesta época, uma greve geral era uma coisa invulgar; era uma perfeita revolução em miniatura. Naturalmente, seguiu-se a mais brutal repressão: cerca de um milhar de operários foram presos e recambiados para o seu país de origem, a greve geral esmagada. Vemos já delinearem-se todas as características uma futura greve de massas: em primeiro lugar, o facto que desencadeou o movimento foi fortuito, e mesmo acessório, a explosão foi espontânea. Mas no modo como o movimento foi desencadeado manifestaram-se os frutos da propaganda conduzida em vários anos pela social-democracia; no decorrer da greve geral os propagandistas da social-democracia permaneceram à cabeça do movimento, dirigiram-no e fizeram dele trampolim para uma viva agitação revolucionária. Por outro lado, se as greves pareciam limitar-se exteriormente a uma reivindicação puramente económica visando os salários, a atitude do governo, bem como a agitação socialista, transformaram-se num acontecimento político de primeira ordem. Por fim, a greve foi esmagada, os operários sofreram uma «derrota». Contudo, a partir de Janeiro do ano seguinte (1897), os operários têxteis de S. Petersburgo iniciaram uma greve geral, obtendo desta vez um enorme sucesso: a instauração do dia de trabalho de 11 h e meia, em toda a Rússia. Resultado mais importante ainda: após a primeira greve geral de 1896 que foi feita sem qualquer organização operária e sem caixa de greve, iniciou-se pouco a pouco na Rússia propriamente dita uma intensa luta sindical que em breve se estendeu de S. Petersburgo ao resto do país, abrindo novas perspectivas à propaganda e à organização da social-democracia. Assim um trabalho invisível e subterrâneo preparava, sob o aparente silêncio sepulcral dos anos que se seguiriam, a revolução proletária.

A greve do Cáucaso em Março de 1902 explodiu dum modo tão fortuito como a de 1896 e parecia, ela também, ser o resultado de factores puramente económicos, resumindo-se a reivindicações parciais. Ela está ligada à terrível crise industrial e comercial que precedeu na Rússia a guerra russo-japonesa e contribuiu fortemente para a criação, tal como esta guerra, de uma consciência revolucionária. A crise provocou um grande surto de desemprego, alimentando o descontentamento da massas proletária. Também o governo resolveu, para apaziguar a classe operária, enviar a «mão de que obra inútil» para o seu país de origem. Tal medida, devia abranger cerca de 400 operários do petróleo, provocou precisamente em Batoum um protesto maciço. Realizaram-se manifestações, prisões, uma repressão sangrenta finalmente, um processo político no decurso do qual a e, luta, por reivindicações parciais e puramente económicas, tomou foros de acontecimento político e revolucionário. A greve de Batoum, que não saiu coroada de sucesso e que conduziu a uma derrota, teve como resultado uma série de manifestações revolucionárias em Njini-Novgorod, em Saratov e noutras cidades; esteve assim na origem da vaga revolucionária geral. A partir de Novembro de 1902 nota-se a primeira e verdadeira repercussão sob a forma de uma greve geral em Rostov-do-Don. Este movimento foi desencadeado por um conflito que surgiu nas oficinas do caminho de ferro em Vladicaucaso a propósito dos salários. Porque a administração queria reduzir os salários, é publicado um manifesto pela Direcção do Partido Social-Democrata, apelando para a greve e formulando as seguintes reivindicações: 9 h de trabalho, aumento as de salários, supressão dos castigos, expulsão dos engenheiros impopulares, etc. Todas as oficinas do caminho de ferro entraram em greve. Todos os outros ramos de actividade se juntaram ao movimento, e Rostov conhece em breve uma situação sem precedentes:

suspensão total do trabalho na indústria, todos os dias se realizavam «meetings» extraordinários ao ar livre com 15 a 20 mil operários, estando os manifestantes cercados várias vezes por um cordão de Cossacos: os oradores social-democratas usaram da palavra publicamente e, pela primeira vez, discursos inflamados sobre o socialismo e liberdade política eram apresentados e acolhidos com entusiasmo extraordinário; eram difundidas tarjetas revolucionárias às dezenas de milhares. Em plena Rússia congelada no seu absolutismo, o proletariado de Rostov, pela primeira vez, no fogo da acção, conquista o direito de reunião. Claro que a sangrenta repressão não se fez esperar. Em poucos dias, as reivindicações salariais nas oficinas do caminho de ferro de Vladicáucaso tomaram as proporções de uma greve política geral e de uma batalha revolucionária de rua. Imediatamente, se seguiu uma segunda greve, desta vez na estação de Tichoretzkaia, na mesma linha de caminho de ferro. Ainda aí teve lugar uma repressão feroz, seguida de um processo, e Tichoretzkaia entra, por sua vez, na cadeia ininterrupta dos episódios revolucionários. A primavera de 1903 trouxe uma compensação para as greves de Rostov e de Tichoretzkaia: em Maio, Junho, Julho todo o sul da Rússia se inflama. Há literalmente greve geral em Baku, Tiflis, Batoum, Elisabethgrad, Odessa, Kiev, Nicolaiev, Ekaterinoslav. Mas, também aí, a greve não foi desencadeada a partir de um núcleo, segundo um plano preconcebido: desencadeou-se em diversos pontos por motivos diversos e sob formas diferentes para depois confluir. Baku abre o desfile: várias reivindicações parciais de salários em diversas fábricas e diversos ramos acabam por conduzir a uma greve geral. Em Tiflis, 2000 empregados do comércio, cujo horário de trabalho ia das 6 h da manhã às 11 h da noite, iniciam a greve; a 4 de Julho, às 8 h da tarde, abandonam todas as lojas e desfilam em cortejo ao longo da cidade, obrigando os lojistas a fechar. A vitória é completa: os empregados do comércio alcançam o dia de trabalho de 8 h e meia; em breve o movimento se estende às fábricas, às oficinas, aos escritórios. Não há jornais, os eléctricos só circulam sob a protecção das tropas. Em Elisabethgrad, a 10 de Julho, desencadeia-se a greve em todas as fábricas, tendo por objectivo reivindicações puramente económicas. Estas foram aceites na sua maior parte e a greve cessa no dia 14 de Julho. Mas duas semanas mais tarde rebenta novamente; desta vez são os padeiros quem lança a palavra de ordem, seguidos pelos pedreiros, marceneiros, tintureiros, moleiros e, finalmente, por todos os operários fabris. Em Odessa, o movimento principia por uma reivindicação salarial, na qual participa a associação operária «legal» fundada por agentes governamentais com base no programa elaborado pelo célebre agente Zoubatov. Eis ainda aí uma das mais belas astúcias da dialéctica histórica. As lutas económicas do período precedente — entre outras a grande greve geral de S. Petersburgo (em 1896) — levaram a social-democracia russa a exagerar o que se chama «o economismo», preparando assim o terreno, na classe operária para as manobras demagógicas de Zoubatov. Mas, um pouco mais tarde, a grande corrente revolucionária fez virar o barquito dos cem pavilhões e forçou-o a vogar à cabeça da frota proletária revolucionária. Foram as associações de Zoubatov que na primavera de 1904 deram a palavra de ordem para a grande greve geral de Odessa, como para a greve geral de S. Petersburgo em Janeiro de 1905. Os trabalhadores de Odessa, até então embalados na ilusão da bonomia do governo e da sua simpatia por uma luta puramente económica, imediatamente quiseram tirar a prova: pressionaram a «Associação Operária» de Zoubatov a proclamar uma greve com objectivos reivindicativos modestos. O patrão expulsou-os simplesmente, e quando reclamaram ao chefe da Associação o prometido apoio governamental, este esquivou-se, facto que levou ao rubro o catalisador revolucionário. Em breve os social-democratas tomaram as rédeas do movimento grevista que atingira outras fábricas. No dia 1 Julho, greve de 2500 operários dos caminhos de ferro; a 4 do mesmo mês entram em greve os operários do porto, reclamando um aumento de salários de 80 kopeks a 2 rublos e redução de meia hora no horário de trabalho. Em 6 de Julho os marinheiros juntam-se ao movimento. A 13, levantamento do pessoal dos eléctricos. Realiza-se uma reunião de grevistas — 7 a 8 mil pessoas; forma-se o cortejo, indo de fábrica em fábrica, engrossa como uma avalanche até levar 40 a 50 mil pessoas, dirigindo-se ao porto para organizar um levantamento geral. Rapidamente, em toda a cidade, reina a greve geral. Em Kiev, sublevação em 21 de Julho nas oficinas do caminho de ferro. Também aqui as condições de trabalho e as reivindicações salariais são o motivo da explosão da greve. No dia seguinte, os fundidores seguem o exemplo. Em 23 de Julho, ocorre um incidente que anuncia a greve geral. De noite, dois delegados dos ferroviários são presos; os grevistas reclamam a sua libertação as imediata; ante a recusa que lhes é oposta, decidem impedir os comboios de sair da cidade. Na gare, os grevistas com as mulheres e filhos deitam-se nos carris, verdadeira maré de cabeças humanas. Ameaçam atirar sobre eles. Os operários descobrem o peito e gritam: «Atirem!» Disparam sobre a multidão, 30 a 40 pessoas são mortas, entre as quais mulheres e crianças. Após este acontecimento, Kiev inteira está em greve. Os cadáveres das vítimas são trazidos em braços acompanhados por um imponente cortejo. Reuniões, discursos, prisões, combates isolados na rua — Kiev está em plena revolução. O movimento acaba depressa; mas os tipógrafos alcançaram a redução de 1 hora no dia de trabalho e um aumento de 1 rublo; estabelece-se o dia de8 h de trabalho numa fábrica de porcelana; as oficinas dos caminhos de ferro fecham por decisão ministerial; outras a profissões continuam em greve parcial pelas suas reivindicações. Por contágio, a greve geral chega a Nicolaiev, sob imediata influência das notícias vindas de Odessa, Baku, Batoum e Tiflis, não obstante a resistência do comité social-democrata, que queria retardar o começo do movimento até ao momento em que as tropas saíssem para manobras; os grevistas iam de oficina em oficina; a resistência do exército não fez mais que lançar azeite no fogo. Cedo se viu formarem-se enormes cortejos que impeliam, ao som de cânticos revolucionários, todos os operários, empregados, pessoal dos eléctricos, homens e mulheres. O levantamento era total. Em Ekaterinov, a 3 de Agosto, os padeiros entram em greve, a 8 param os eléctricos, não há jornais. Assim se realizou a grandiosa greve geral do sul da Rússia no Verão de 1903. Mil conflitos económicos parciais, mil incidentes «fortuitos» convergiam, confluindo num poderoso oceano; em poucas semanas, todo o sul do Império czarista foi transformado numa estranha República operária revolucionária.

«Abraços fraternais, gritos de entusiasmo e contentamento, cânticos de liberdade, risos felizes, alegria e delírio; um perfeito concerto despontava desta multidão de milhares de pessoas indo e vindo através da cidade, de manhã à noite. Reinava uma atmosfera de euforia; quase se podia crer que uma nova e melhor vida principiara na terra. Espectáculo profundamente comovedor, idílico e enternecedor ao mesmo tempo». Assim escrevia então o correspondente do Osvobojdenié, órgão liberal de M. Pierre de Struve.

No início de 1904 rebentou a guerra, o que provocou uma interrupção no movimento grevista por algum tempo. De início vemos espalhar-se pelo país uma turbulenta vaga de manifestações «patrióticas» organizadas pela polícia. O chauvinismo oficial czarista começou por abater a sociedade burguesa «liberal». Mas cedo a social-democracia retomou a posse do campo de batalha; às manifestações policiais da canalha patriótica se opõem as manifestações operárias revolucionárias. Por fim, as vergonhosas derrotas do exército czarista arrancam do seu sono a própria sociedade liberal. Inaugura-se a era dos congressos, dos banquetes, dos discursos, das felicitações, dos manifestos liberais e democráticos. Momentaneamente diminuído, pela vergonhosa derrota, o absolutismo desorientado deixa agir esses senhores que já vêem abrir-se ante si o paraíso liberal. O liberalismo está na vanguarda da cena política durante 6 meses, o proletariado reentra na sombra. Somente após uma longa depressão o absolutismo se organiza, a camarilha reúne as suas forças; bastou espicaçar os Cossacos para lançar em debandada os liberais, a partir de Dezembro. E os discursos, os congressos, são apodados de «insolente pretensão» e proibidos por um traço de tinta; subitamente, o liberalismo acha-se no fim do seu latim. Mas no momento em que o liberalismo está completamente desorientado, entra o proletariado em acção. Em Dezembro de 1904 rebenta a célebre e gigantesca greve geral de Baku contra o desemprego; o operariado ocupa de novo o campo de batalha. A palavra proibida é reduzida a silêncio, a acção recomeça. Em Baku, durante várias semanas, em plena greve geral, a social-democracia domina inteiramente a situação; os inesperados acontecimentos de Dezembro no Cáucaso teriam provocado uma emoção se não tivessem sido rapidamente invadidos pela vaga crescente da revolução, na origem da qual estes se encontram. As notícias fantasistas e confusas sobre a greve geral de Baku não tinham alcançado ainda todas as extremidades do Império, quando, em Janeiro de 1905, explodiu a greve geral de S. Petersburgo. Também aí, o motivo que originou o movimento foi, como se sabe, mínimo. Dois operários dos estaleiros de Poutilov tinham sido despedidos por pertencerem à Associação «legal» de Zoubatov. Tal medida de rigor provocou uma greve de solidariedade de todos os operários dos estaleiros em número de 12 000, no dia 16 de Janeiro. A greve deu aos social-democratas a possibilidade de empreender uma activa propaganda a favor da extensão das reivindicações: reclamavam o dia de trabalho de 8 h, o direito de reunião, a liberdade de expressão e de imprensa, etc. A agitação que animava as oficinas de Poutilov rapidamente alcançou outras fábricas, e, dias depois, 140 000 operários entravam em greve. Após deliberações tomadas em comum e discussões tempestuosas, foi elaborada a carta proletária das liberdades cívicas, mencionando como primeira reivindicação o dia de trabalho de 8 h; levando esta carta, desfilaram frente ao palácio do czar, em 22 de Janeiro, 200 000 operários chefiados pelo padre S. Gapone. Numa semana o conflito provocado pela expulsão de dois operários dos estaleiros de S. Petersburgo, transforma-se no prólogo da mais poderosa revolução dos tempos modernos. Os acontecimentos posteriores são conhecidos: em Janeiro e Fevereiro a sangrenta repressão de S. Petersburgo ocasionava gigantescas greves de massas e greves gerais em todos os centros industriais e cidades da Rússia, Polónia, Lituânia, províncias bálticas, Cáucaso, Sibéria, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Mas se examinarmos as coisas com mais atenção, as greves tomam aspectos diferentes das do período anterior; agora, por todo o lado, são as organizações social-democratas que chamam à greve, por todo o lado a solidariedade revolucionária para com o proletariado de S. Petersburgo foi expressamente designada como motivo e fim da greve geral, por toda a parte, desde o início, houve manifestações, discursos, confrontos com a polícia. Todavia, também aqui não pode falar, nem de plano pré-estabelecido, nem de acção organizada, porque o apelo dos partidos dificilmente acompanhava a sublevação espontânea das massas; os dirigentes mal tinham tempo para formular palavras de ordem enquanto as massas lutavam. Outra diferença: as greves de massas e gerais anteriores tinham a sua origem na convergência de reivindicações salariais parciais; estas, na atmosfera geral da situação revolucionária e sob o impulso da propaganda social-democrata, depressa se transformaram em manifestações políticas; o elemento económico e a difusão sindical era o seu ponto de partida, a preparação da acção de classe e a direcção política eram o resultado final. Aqui o movimento é inverso. As greves gerais de Janeiro -Fevereiro, eclodiram, primeiro sob a forma de uma acção revolucionária preparada pela social-democracia, mas esta acção disseminou-se em breve numa infinidade de greves locais, parcelares, económicas, em diversas regiões, cidades, profissões, fábricas. Desde a Primavera de 1905 até pleno Verão assistiu-se, neste gigantesco Império, ao nascimento uma poderosa luta política de todo o proletariado contra o capital; a agitação alcança, no topo, as profissões liberais e a pequena burguesia, empregados comerciais, dos bancos, engenheiros, comediantes, artistas, e penetra na base, conquistando os criados, os agentes subalternos da polícia, e até as camadas do «sub-proletariado», estendendo-se simultaneamente, aos campos, batendo mesmo à porta das casernas. Eis o painel imenso e variado da batalha geral do trabalho contra o capital; vemos reflectir-se nele toda a complexidade do organismo social, da consciência política de cada categoria e de cada região; vemos desenvolver-se toda uma gama de conflitos desde luta sindical, conduzida em boa e devida forma pelo bem treinado exército de elite do proletariado industrial, até à explosão de uma revolta anarquista de um punhado de operários agrícolas e ao levantamento confuso de uma guarnição militar, até à revolta discreta e distinta, de punhos de renda e colarinhos altos numa mesa de jogo e, aos protestos a um tempo tímidos e audaciosos de polícias descontentes, secretamente reunidos num posto enfumarado, obscuro e sujo.

Os partidários das «batalhas ordenadas e disciplinadas» concebidas segundo um plano e um esquema, os que em particular querem sempre saber com antecedência como «será preciso fazer», consideram que foi um «grave erro» retalhar a grande acção da greve política geral de Janeiro de 1905 numa infinidade de lutas económicas, visto que isso conduziu, a seus olhos, a uma paralisação da acção e à sua transformação num fogo fátuo. O próprio partido social-democrata russo que sem dúvida participou na revolução, mas não foi o seu autor, e que deve aprender as leis ao longo do seu desenvolvimento, se encontrou desorientado por algum tempo com o refluxo aparentemente estéril da primeira maré de greves-gerais. Contudo, a história, que cometera este «grande erro», concluía assim um gigantesco trabalho revolucionário tão inevitável quanto incalculável nas suas consequências, sem se preocupar com as lições dos que a si próprios se instituíram como mestres.

A brusca sublevação geral do proletariado em Janeiro, desencadeada pelos acontecimentos de S. Petersburgo era, na sua acção exterior, um acto político revolucionário, uma declaração de guerra ao absolutismo. Mas esta primeira luta geral e directa de classes provocou uma reacção tanto mais poderosa que a anterior, quanto acordava pela primeira vez, como um choque eléctrico, o sentimento e a consciência de classe em milhões e milhões de homens. Este despertar da consciência de classe imediatamente se manifesta do seguinte modo: uma multidão de milhões de proletários descobre de súbito, com um sentimento de acuidade insuportável, o carácter intolerável da sua existência social e económica, do qual era escravo há decénios, sob o jugo capitalismo. De repente, desencadeia-se uma sublevação geral e espontânea para sacudir esse jugo, para quebrar as algemas. Sob mil aspectos, os sofrimentos do proletariado moderno reavivam a recordação destas feridas sempre sangrentas. Aqui luta-se pelas 8 h de trabalho, ali, contra o trabalho incerto; aqui, sobre as charruas manuais, transportam-se os senhores brutais, após terem sido metidos num saco; algures, combate-se o infame sistema de multas; por toda a parte luta-se por melhor salário; aqui e ali, pela supressão do trabalho ao domicílio. As profissões anacrónicas e degradantes das grandes cidades, as pequenas cidades adormecidas num sono idílico até então, a aldeia com o seu sistema de propriedade de escravatura hereditária, — tudo isto é bruscamente despertado pelo raio tempestuoso de Janeiro, tomando consciência dos seus direitos e procurando recuperar febrilmente o tempo perdido. Aqui a luta económica foi na realidade não um fraccionamento, não um esboroamento da acção, mas uma mudança de frente; a primeira batalha contra o absolutismo transforma-se em breve e naturalmente num ajuste geral de contas com o capitalismo, e este, em conformidade com a sua natureza, assume a forma de conflitos parciais em favor dos salários. É a falso dizer-se que acção política de classe em Janeiro foi destruída, porque a greve geral se repartiu em greves económicas. É exactamente o contrário: uma vez esgotado o conteúdo possível da acção política, feito o balanço da situação e da fase em que a revolução se encontrava, esta fragmentou-se, ou antes, transformou-se em acção económica. De facto, que mais podia obter a greve geral de Janeiro? É preciso ser-se inconsciente para esperar, de uma só vez, o esmagamento do absolutismo com uma só greve geral «prolongada», segundo o modelo anarquista. É pelo proletariado que o absolutismo na Rússia tem de ser derrubado. Mas para tanto, o proletariado tem necessidade de um alto grau de educação política, de consciência de classe e organização. Não pode aprender todas estas coisas em brochuras ou em folhas volantes; tal educação ele a adquirirá na escola política viva, na luta e pela luta, no decorrer da revolução em marcha. Aliás, o absolutismo não pode ser derrubado, seja quando for, com a exclusiva e ajuda de uma dose suficiente de «esforços» e «perseverança». A queda do absolutismo não é mais que um sinal exterior da evolução interior das classes na sociedade russa. Dantes, para que o absolutismo fosse derrubado, era preciso que a estrutura interna da futura Rússia burguesa fosse estabelecida, que a sua estrutura de moderno Estado de classes fosse constituída. Isso implica a divisão e a diversificação das camadas sociais e dos interesses, a constituição, não somente do partido revolucionário operário, mas ainda dos diversos partidos: liberal, radical, pequeno-burguês, conservador e reaccionário; isso implica o despertar para o conhecimento, para a consciência de classe não só das camadas populares, mas ainda das camadas burguesas; estas últimas não podem constituir-se nem amadurecer senão na luta, no curso da revolução em marcha, na escola viva dos acontecimentos, no seu confronto com o proletariado e entre si num confronto contínuo e recíproco. Esta divisão e esta maturação das classes na sociedade burguesa, assim como a sua acção na luta contra o absolutismo, são, ao mesmo tempo, travadas e dificultadas por um lado, estimuladas e aceleradas por outro, pelo papel dominante e particular do proletariado e pela sua acção de classe. As diversas correntes subterrâneas do processo revolucionário entrecruzam-se, criam mutuamente obstáculos, avivam contradições internas da revolução o que tem por resultado, no entanto, a precipitação e intensificação da poderosa explosão. Assim, este problema, tão simples na aparência, tão pouco complexo, puramente mecânico: a queda do absolutismo, exige um completo processo social; é necessário que o terreno social seja arado de alto a baixo, que o que está por baixo venha à superfície, o que está por cima seja profundamente enterrado, que «ordem» aparente se transforme em caos e que a partir da aparente anarquia seja criada uma nova ordem. Ora, neste processo de transformação das estruturas sociais da antiga Rússia não foi unicamente o «trovão» de Janeiro que desempenhou um papel insubstituível, mas principalmente as grandes tempestades da Primavera e do Verão. A batalha geral e encarniçada dos assalariados contra o capital contribuiu, ao mesmo tempo, para a diferenciação das várias camadas populares e das camadas burguesas, para a formação de uma consciência de classe no proletariado revolucionário e também na burguesia liberal e conservadora. Se, nas cidades, as reivindicações salariais contribuíram para a criação do grande partido monárquico dos industriais de Moscovo, a grande revolta campesina na Livónia levou à rápida liquidação do famoso liberalismo aristocrático e agrário dos Zemtvos. Simultaneamente, o período das batalhas económicas na Primavera e Verão de 1905, permitiu ao proletariado das cidades tirar lições do prólogo de Janeiro e tomar consciência das tarefas futuras da revolução, graças à intensa propaganda conduzida pela social-democracia e graças à sua direcção política. A este primeiro resultado acrescenta-se um outro carácter social durável: a elevação geral do nível de vida do proletariado no plano económico, social e intelectual. As greves da Primavera de 1905 tiveram, quase todas, um fim vitorioso. Citemos, somente a título de exemplo, escolhidos numa colecção de factos importantes, de que não se pode medir ainda a amplitude, um certo número de dados de algumas greves importantes que se desenrolaram em Varsóvia, sob a direcção da social-democracia polaca e lituana. Nas maiores empresas metalúrgicas de Varsóvia — Sociedade Anónima Lilpop, Rau e Lowenstein, Rudzki & C.º, Bormann Schwede & C.ª, Handtke, Gerlach e Pulst, Geisler Irmãos, Eberhard, Wolksi & Jarmuskiescicz, C.ª, Weber K. Labor, Sociedade Anónima Conrad e e Daehm, Gwizdzinski & C.º, Brun & Filhos, Fraget, Norblin, Werner, Buch, Kenneberg Irmãos, fábrica de lâmpadas Dittmar, Serkowski, Weszynski, ao todo 22 empresas, — os operários obtiveram, após uma greve de 4 a 5 semanas (iniciada em 25 e 26 de Janeiro ), o dia de trabalho de 9 h assim como um aumento nos salários de 15 a 25%; obtiveram também diversos melhoramentos de menor importância. Nos maiores estaleiros da Indústria de madeira em Varsóvia, nomeadamente Damiecki, Gromel, Szerbinski, Karmanski, Trenerovski, Horn, Bevensee, Twarkovski, Daab e Martens, 10 empresas ao todo, os grevistas obtiveram no dia 23 de Fevereiro o dia de trabalho de 9 h; entretanto, não se contentaram com isso e mantiveram a exigência do dia de 8 horas, que conseguiram obter uma semana mais tarde, ao mesmo tempo que um aumento de salários. Toda a indústria da construção se pôs em greve a 27 de Fevereiro, reclamando, segundo a palavra de ordem dada pela social-democracia, o dia de trabalho de 8 h; em 11 de Março obtinham o dia de trabalho de 9 h, um aumento de salário, pagamento regular do salário por semana, etc. Os pintores de construções, os carpinteiros, os seleiros e os ferreiros, conquistaram juntos o horário de trabalho de 8 h sem redução de salários. Os empregados dos telefones fizeram greve durante 10 dias, obtendo assim o dia de trabalho de 8 h e um aumento de salário de 10 a 15%. A grande fábrica Dietrich (10 000 operários) conquista, após 9 semanas de greve, a redução de 1 h no dia de trabalho e um aumento de salário de 5 a 10%. Constatam-se resultados análogos com infinitas variantes em todas as outras indústrias de Varsóvia, Lodz, Sosnovice.

Na Rússia, propriamente dita, foi obtido o dia de trabalho de 8 h:

— em Dezembro de 1904, por várias categorias dos operários da nafta em Baku;

— em Maio de 1905, pelos operários das refinarias de açúcar do distrito de Kiev;

—em Janeiro, no conjunto das tipografias da cidade de Samara (ao mesmo tempo que um aumento de salários à peça e abolição das multas);

—em do Fevereiro, na fábrica de aparelhos de medicina do exército, numa fábrica de móveis e na fábrica de S. Petersburgo. — Ainda mais: criou-se um sistema de trabalho por equipes de 8 h nas minas de Vladivistok;

— em Março, na oficina mecânica da tipografia dos papeis de Estado, pertencente ao Estado;

— em Abril, pelos ferreiros de Bodroujsk;

— em Maio, foi adoptado igualmente o horário de 8 h meia na enorme empresa de tecelagem de lã em Morosov (ao mesmo tempo, abolia-se o trabalho nocturno, e os salários aumentavam 8%);

—em Junho, adoptava-se o dia de trabalho de 8 h em vários lagares de azeite em S. Petersburgo e Moscovo;

— em Julho, o horário de trabalho de 8 h e meia, para os em mecânicos do porto de S. Petersburgo;

— Novembro, todas as tipografias particulares da cidade de Orei, adoptam o dia de trabalho de 8 h, assim como alcançam um aumento de 20% no salário/hora e de 100% nos salários por empreitada; instituía-se igualmente um comité directivo composto por igual número de patrões e operários;

— em Fevereiro, o dia de trabalho de 9 h em todas oficinas dos caminhos de ferro; em muitos arsenais nacionais de guerra e estaleiros navais; na maior parte das fábricas de Berdjankz; em todas as tipografias de Poltava e Minsk; o dia de trabalho de 9 h e meia nas bacias marítimas, no estaleiro e na fundição mecânica de Nicolaiev; em Junho, após uma greve geral dos empregados de café em Varsóvia, foi introduzido na maior parte dos restaurantes e cafés, simultaneamente, um aumento de salário de 20 a 40% e férias de quinze dias por ano.

O dia de trabalho de 10 h é adoptado em quase todas as fábricas de Lodz, Sosnovice, Riga, Kovno, Reval, Dorpat, Minsk, Kharkov; é adoptado pelos padeiros de Odessa; pelas oficinas artesanais de Kichinev, em várias fábricas de chapéus em S. Petersburgo; pelas fábricas de fósforos de Kovno (e um aumento de salário de 10%); em todos os estaleiros navais do Estado e por todos os operários do porto.

Os aumentos de salários são geralmente menos substanciais que a redução do tempo de trabalho, mas nem por isso menos importantes; assim, em Varsóvia, no decorrer do mês de Março de 1905, as oficinas municipais estabelecem um aumento de 15%; em Ivanovo-Voznessensk, centro de indústrias têxteis, os aumentos de salário oscilam entre 7 e 15%; em Kovno, 75% da população operária total beneficia de um aumento. Instaurou-se um salário mínimo fixo num certo número de padarias em Odessa, nos estaleiros marítimos da Neva em S. Petersburgo, etc. Na verdade, estas vantagens foram mais de uma vez retiradas, ora num sítio, ora noutro. Mas tal acontecimento deu origem a novas batalhas, a «desforços» mais encarniçados ainda; foi assim que o período de greves da Primavera de 1905 criou por si uma série infinda de conflitos económicos cada vez mais vastos e mais encadeados, que ainda duram. Nos períodos de acalmia exterior da revolução, em que os comunicados não contêm qualquer notícia sensacional da frente russa, em que o leitor da Europa Ocidental guarda o seu jornal, constatando com decepção que não há «nada de novo» na Rússia, a revolução prossegue sem tréguas, dia após dia, hora após hora, seu imenso trabalho subterrâneo, minando as profundezas de todo o império. A imensa luta económica faz passar rapidamente, por métodos acelerados, do estádio de acumulação primitiva da economia patriarcal fundada na pilhagem, a um estádio de civilização mais moderno. Actualmente, a Rússia está à frente, no que se refere à duração real do trabalho, não somente da legislação russa que prevê um dia de trabalho de 11 h e meia, mas também das condições efectivas de trabalho na Alemanha. Na maior parte dos ramos da grande indústria russa, adopta-se o dia a de trabalho de 8 h, o que constitui, aos olhos da social-democracia alemã, um objectivo inatingível. Ainda mais, este «constitucionalismo industrial» tão desejado na Alemanha, objecto de todos os votos, em nome do qual os adeptos duma táctica oportunista queriam manter as águas paradas do parlamentarismo — única via possível de salvação — ao abrigo de todo o sopro de ar um pouco vivificante, apareceu na Rússia, em plena tempestade revolucionária, ao mesmo tempo que o «constitucionalismo» político. Na realidade, o se produziu não foi unicamente um aumento geral do nível de que vida da classe operária, nem do seu nível de civilização. O nível de vida, sob a perspectiva de bem-estar material durável, não tem lugar na revolução. Esta está de contradições e contrastes, ora consegue vitórias económicas, ora cheia sofre as vinganças mais brutais do capitalismo; hoje é o dia de trabalho de 8 h, amanhã os lock-out em massas e a fome para centenas de milhares de pessoas. O resultado mais precioso, porque permanente neste brusco fluxo e refluxo da revolução é de ordem espiritual: o crescimento intermitente do proletariado no plano intelectual e cultural é uma garantia absoluta do seu irresistível progresso futuro, tanto na luta económica, como na luta política.

Mas não é tudo: as próprias relações entre operários e patrões sofrem transformações; após a greve geral de Janeiro e as greves seguintes de 1905, o princípio do capitalista senhor em sua casa é praticamente suprimido. Vimos constituir-se espontaneamente Comités operários, únicas instâncias que negociam com o patrão, nas maiores fábricas de todos os centros industriais mais importantes. E, por fim, ainda mais: as greves aparentemente caóticas e a acção revolucionária «organizada» que sucederam à greve geral de Janeiro transformam-se no ponto de partida para um precioso trabalho de organização. A história ri-se dos burocratas apaixonados por esquemas «pré-fabricados» guardiões ciumentos da felicidade dos sindicatos. As sólidas organizações concebidas como fortalezas inexpugnáveis e cuja existência tem de ser assegurada, antes de eventualmente se pensar na realização de uma hipotética greve de massas na Alemanha — são, pelo contrário, fruto da própria greve de massas. E enquanto os ciumentos guardiões dos sindicatos alemães temem, antes de tudo, ver quebrar em mil bocados essas organizações, qual porcelana, no meio turbilhão revolucionário, a revolução russa apresenta-nos um quadro completamente diferente: o que emerge dos turbilhões e da tempestade, das chamas e do braseiro da greve de massas, qual Afrodite surgindo da espuma dos mares, são... sindicatos novos e jovens, vigorosos e ardentes. Citemos mais uma vez apenas um pequeno exemplo, mas típico para todo o Império. No decurso da 2.ª Conferência dos Sindicatos Russos, realizada em fins de Janeiro de 1906 em S. Petersburgo, o delegado dos sindicatos de S. Petersburgo apresentou um documento sobre o desenvolvimento dos organismos sindicais na capital dos czares, em que dizia:

«O dia 22 de Janeiro de 1905, que destruiu a associação de Gapone, marcou uma etapa. A massas dos trabalhadores aprendeu a apreciar, pela força dos acontecimentos a importância da organização e compreenderam que podiam criar sozinhos as suas organizações. É em ligação directa com o movimento de Janeiro que nasce em S. Petersburgo o primeiro sindicato: o dos tipógrafos. A comissão eleita para o estudo das tarifas elaborou os estatutos e o dia 19 de Junho foi o primeiro da existência desse Sindicato. Os sindicatos dos contabilistas e guarda-livros nascem mais ou menos na mesma altura. Ao lado destas organizações, cuja existência era praticamente pública (e legal), surgem, em Janeiro e Outubro de 1905 sindicatos legais e semi-legais. Citemos, entre primeiros, o dos ajudantes de farmácia, e o dos empregados comerciais. Entre os sindicatos legais deve mencionar-se a União dos Relojoeiros, cuja primeira sessão secreta teve lugar em 24 de Abril. Todas as tentativas para convocar uma Assembleia Geral pública fracassaram ante a obstinada resistência da polícia e dos patrões representados pela Câmara do Comércio. Esta derrota não impediu a existência, dos sindicatos que realizam assembleias secretas dos seus aderentes em 9 de Junho e 14 de Agosto, sem contar as sessões do departamento dos sindicatos. O Sindicato alfaiates foi fundado na Primavera de 1905, no decorrer de uma reunião secreta realizada em plena floresta à qual assistiram 70 alfaiates. A seguir à discussão do problema da fundação, foi eleita uma comissão encarregada de elaborar os estatutos. Todas as tentativas da Comissão para assegurar ao Sindicato uma existência legal resultaram num fracasso. A sua acção limitou-se à propaganda e ao recrutamento nas diferentes oficinas. Sorte semelhante estava reservada ao Sindicato dos sapateiros. Numa noite de Julho foi convocada uma reunião secreta num bosque dos arredores. Reuniram-se mais de mil sapateiros; foi apresentado um relatório versando a importância dos sindicatos, sua história na Europa Ocidental, e a sua missão na Rússia. Decidiu-se a fundação de um sindicato, a eleição de uma comissão constituída por 12 membros encarregada de redigir os estatutos e de convocar uma assembleia Geral de Sapateiros. Os estatutos foram redigidos, mas não se pôde até agora imprimi-los nem convocar a Assembleia Geral».

Tais foram os difíceis começos dos sindicatos. Surgiram seguidamente as jornadas de Outubro, a segunda greve geral, o édito de 30 de Outubro e o curto «período constitucional». Os trabalhadores lançaram-se com entusiasmo nas ondas da liberdade política, para utilizá-la no trabalho de organização. A par das actividades políticas quotidianas — reuniões, discussões, criação de grupos — empreende-se o trabalho de organização sindical. Em Outubro e Novembro quarenta novos sindicatos foram criados em S. Petersburgo. Criou-se imediatamente um «gabinete central», quer dizer, uma união sindical; surgem vários jornais sindicais, e a partir de Novembro um órgão central: O Sindicato. A descrição do que se passou em S. Petersburgo aplica-se a Moscovo e Odessa, a Kiev e Nicolaiev, a Saratov e Voronej, a Samara e Nijni-Novgorod, a todas as grandes cidades da Rússia e mais ainda à Polónia. Os sindicatos destas cidades procuram encetar contactos entre si; realizam-se conferências. O fim do «período constitucional» e o regresso à reacção em Dezembro de 1905, põe fim provisoriamente à enorme actividade pública dos sindicatos, sem contudo levar ao seu desaparecimento. Mantêm-se clandestinos como organizações e prosseguem ao mesmo tempo oficialmente as reivindicações salariais. É uma mistura original da actividade sindical ao mesmo tempo legal e ilegal, correspondendo às contradições da situação revolucionária. Mas no seio da própria luta prossegue-se o trabalho com seriedade, mesmo com um pouco de pedantismo. Os sindicatos da social-democracia polaca e lituana, por exemplo, que no último Congresso do Partido (Julho de 1906) estavam representados por cinco delegados e compreendiam 10 000 membros quotizados, são providos de estatutos regulares, de cartões impressos para os e aderentes, de selos móveis, etc. E os mesmos padeiros e sapateiros, metalúrgicos e tipógrafos de Varsóvia e Lodz, que em Junho de 1905 estavam nas barricadas e, em Dezembro esperavam a palavra de ordem vinda de S. Petersburgo para descer à rua, têm tempo para reflectir calmamente entre duas greves, entre a prisão e o lock-out, em pleno estado de sítio, e para discutir profunda e atentamente os estatutos sindicais. Mais, os que se batiam ontem e se baterão amanhã nas barricadas, várias vezes nas reuniões censuraram severamente os seus dirigentes e os ameaçaram de abandonar o partido, porque não puderam imprimir rapidamente os cartões sindicais — nas tipografias clandestinas e sob a ameaça constante das perseguições policiais. Este entusiasmo e esta seriedade ainda hoje se mantêm. Ao longo das primeiras duas semanas de Julho de 1906 fundaram-se — por exemplo — quinze novos sindicatos em Ekaterinoslav; 6 em Krostoma, outros em Kiev, Poltava, Smolensk, Tcherkassy, Proskourov —, e até nas mais pequenas localidades dos distritos provinciais. Na sessão realizada a 3 de Junho último (1906) pela União dos Sindicatos de Moscovo, de acordo com as conclusões dos artigos apresentados pelo delegado de cada sindicato, decidiu-se que estes deveriam velar pela disciplina dos seus associados, e tinham de impedí-los de tomar parte nos combates de rua, porque a greve de massas é considerada inoportuna. Em face das eventuais provocações do governo têm de velar para que as massas não desçam à rua. Por fim, a União decidiu que, quando um sindicato decreta a greve, os outros devem abster-se de fazer reivindicações salariais. Daqui em diante a maior parte das lutas económicas são dirigidas pelos sindicatos[1].

É assim que a grande luta económica, cujo ponto de partida fora a greve geral de Janeiro e que continua, até agora, constitui o intróito da revolução de onde se vê, ora brotarem explosões isoladas, ora rebentarem imensas batalhas de todo o proletariado — sob a influência conjugada e alternada da propaganda política e dos acontecimentos exteriores. Citemos algumas destas sucessivas explosões: em Varsóvia, no dia 1.º de Maio, por ocasião da festa dos trabalhadores, rebenta uma greve geral, total, até então sem precedentes, acompanhada de uma manifestação de massas perfeitamente pacífica, que termina com uma confrontação sangrenta da multidão desarmada contra as tropas; em Lodz, em Junho, dispersão de um ajuntamento pelo exército, motivando uma manifestação de 100 000 operários por ocasião do funeral de algumas vítimas da soldadesca, um novo recontro com o exército e, finalmente, uma greve geral — conduzindo esta, em 23, 24 e 25 de Maio, a um combate de barricadas, o primeiro no Império dos Czares; em Junho rebenta, no porto de Odessa, a primeira grande revolta dos marinheiros da frota do Mar Negro devido a um pequeno incidente a bordo do couraçado Potemkine o que provocou, como contragolpe, uma enorme greve de massas em Odessa e Nicolaeiv. Esta revolta teve ainda outras repercussões: uma greve e revoltas dos marinheiros em Cronstadt, Libau e Vladivostok.

Em Outubro, tem lugar em S. Petersburgo a experiência revolucionária da instauração do dia de trabalho de 8 h. O Conselho dos Delegados Operários decide criar por métodos revolucionários o dia de trabalho de 8 h. É assim que numa data determinada todos os operários de S. Petersburgo declararam aos seus patrões que se recusavam a trabalhar mais de 8 h por dia e abandonariam os seus locais de trabalho à hora assim fixada. Esta ideia deu ocasião para uma intensa campanha de propaganda, sendo acolhida e executada entusiasticamente pelo proletariado que não olhou aos maiores sacrifícios. É assim que os operários têxteis, até então pagos por unidade e cujo dia de trabalho era de 11 h,, representando, portanto, uma enorme perda de salários o dia trabalho de 8 h, o aceitam sem hesitação. Numa semana, o dia de trabalho de 8 h foi adoptado por todas as fábricas e oficinas de S. Petersburgo, ocasionando uma alegria sem limites no proletariado. Em breve, contudo, o patronato de início desmantelado se prepara para a resposta: por toda a parte, a ameaça de fechar as fábricas. Um certo número de operários aceita negociar, obtendo, aqui o horário de 10 h, o horário de 9 h além. Mas, a elite do proletariado de S. Petersburgo, os operários das grandes fábricas metalúrgicas nacionais permanecem inabaláveis: segue-se o lock-out, 45 a 50 mil operários são despedidos por um mês. Daí que o movimento a favor do dia de trabalho de 8 h prossiga na greve geral de Dezembro, desencadeada, em grande parte, pelo lock-out. Entretanto, tem lugar em Outubro, em resposta ao projecto de Duma de Boulygine, a segunda poderosíssima greve geral desencadeada pela palavra de ordem vinda dos ferroviários, estendendo-se a todo o Império. Esta segunda grande acção revolucionária do proletariado reveste-se dum carácter sensivelmente diferente da primeira greve de Janeiro. A consciência política desempenha aqui um papel muito importante. Na verdade, o motivo que desencadeou a greve de massas foi aqui ainda acessório e aparentemente fortuito: trata-se do conflito entre os ferroviários e a administração, a propósito Caixa de Aposentação. Mas o levantamento geral do proletariado industrial que se seguiu assenta num pensamento político claro. O prólogo da greve de Janeiro fora uma súplica dirigida ao czar para obter a liberdade política; a palavra de ordem da greve de Outubro, era: «Acabemos com a comédia constitucional do Czarismo!» E graças ao sucesso imediato da greve geral que se traduziu no manifesto czarista de 30 de Outubro, o movimento não refluiu sobre si mesmo como em Janeiro, regressando ao início da luta económica; mas transvasa para o exterior, exercendo com ardor a liberdade política recentemente conquistada. Manifestações, reuniões, uma nova imprensa, discussões públicas, massacres sangrentos, pondo fim aos regozijos, seguidos de novas greves e de novas manifestações, tal é o movimentado quadro das jornadas de Novembro e Dezembro. Em Novembro, por apelo da social-democracia, é organizada a primeira greve demonstrativa de protesto contra a repressão sangrenta em S. Petersburgo e à proclamação do estado de sítio na Livónia e Polónia. O sonho da Constituição é seguido de um despertar brutal. A surda agitação acaba por desencadear a terceira greve geral de massas em Dezembro, a qual se estende a todo o Império. Agora o desenrolar e o fim são completamente diferentes dos casos precedentes. A acção política não cede lugar à acção económica como em Janeiro, mas também não alcança uma rápida vitória como em Outubro. A camarilha czarista não renova as suas tentativas para instaurar uma verdadeira liberdade política, e a acção revolucionária choca assim, pela primeira vez em toda a sua extensão, com esse muro inquebrantável: a força material do absolutismo. Pela evolução lógica interna dos acontecimentos em curso, a greve de massas transforma-se em revolta aberta, em luta armada, em combates de rua e barricadas, em Moscovo. As jornadas de Dezembro em Moscovo são o auge da acção política e do movimento de greves de massa, fechando assim o primeiro ano laborioso da revolução. Os acontecimentos de Moscovo são uma imagem reduzida da evolução lógica e do futuro do movimento revolucionário no seu conjunto: a transformação inevitável numa revolta geral aberta; no entanto, esta só pode produzir-se após uma experiência adquirida numa série de revoltas parciais e preparatórias, conduzindo provisoriamente a «derrotas» exteriores e parciais, podendo cada uma aparecer como «prematura».

1906 é o ano das eleições e do episódio da Duma. O proletariado, movido por um poderoso instinto revolucionário que lhe permite ver claramente a situação, boicota a farsa constitucional czarista. Por alguns meses, o liberalismo ocupa de novo o primeiro lugar da cena política. Parece o renovar da situação de 1904: a acção cede lugar à palavra e o proletariado reentra na sombra por algum tempo, consagrando-se à luta sindical e ao trabalho de organização ainda com mais ardor. Cessam as greves de massas, enquanto dia após dia os liberais fazem brilhar o fogo de artifício da sua eloquência. Por fim, a cortina de ferro cai bruscamente. Os actores são dispersos, do furor da eloquência liberal não resta mais que fumo e poeira. A tentativa da social-democracia para organizar uma quarta manifestação de greve de massas em favor da Duma e do restabelecimento da liberdade de expressão cai por terra. A greve política de massas esgotou o seu papel, enquanto tal, e a passagem da greve ao levantamento geral do povo e aos combates de rua não é possível. O episódio liberal acabou, o episódio proletário de rua não é possível. O episódio liberal acabou, o episódio proletário não começou ainda. A cena fica provisoriamente vazia.


4

Nas páginas anteriores tentamos esboçar, em traços sumários, a história da greve de massas na Rússia. Um simples e rápido olhar por esta história dá-nos uma imagem que não se compara em nada ao que habitualmente na Alemanha se diz sobre a greve de massas no decurso das discussões. Em vez do esquema rígido e vazio que nos apresenta uma «acção» linear, executada com prudência e segundo um plano se aprovado pelas instâncias supremas dos sindicatos, vemos um fragmento da vida real feito de carne e sangue, que se não pode arrancar ao meio revolucionário, ligado por mil laços a toda a organização revolucionária. A greve massas tal como nos é apresentada pela revolução russa, um fenómeno tão móvel que reflecte em si todas as fases da luta política e económica, todos os estádios e todos os momentos da revolução. O seu campo de aplicação, a sua força de acção, os factores do seu desencadear transformam-se continuamente. De súbito, abrem-se novas perspectivas à revolução no momento em que esta parecia atravessar um impasse. Ela recusa-se a actuar no momento em que se pensa poder contar seguramente com ela. Ora a vaga de movimento invade todo o Império, ora brota do solo como uma fonte viva, ora se perde na terra. Greves económicas e políticas, greves de massas, e greves parciais, greves demonstrativas ou de combate, greves gerais abrangendo sectores particulares ou cidades inteiras, lutas reivindicativas pacíficas ou batalhas de rua, combates de barricadas — todas estas formas de luta se cruzam ou se tocam, se interpenetram ou desaguam umas nas outras: é um mar de fenómenos eternamente novos e flutuantes. E a lei do movimento destes fenómenos surge claramente: não reside na própria greve de massas, nas suas particularidades técnicas, mas na relação entre as forças políticas e sociais da revolução. A greve de massas é tão somente a forma adquirida pela luta revolucionária e qualquer deslocamento na relação das forças em acção, no desenvolvimento do Partido e na divisão das classes, na posição da contra-revolução, influem imediatamente sobre a acção da greve por inúmeros meios invisíveis e incontroláveis. Entretanto, a própria acção da greve de massas não pára um só instante. Adquire somente outras formas, modifica a sua extensão, os seus efeitos. Ela é a pulsação viva da revolução e ao mesmo tempo o seu motor mais poderoso. Em resumo: a greve de massas, de acordo com o modelo que dela nos oferece a revolução russa, não é um a meio engenhoso inventado para reforçar o efeito da luta proletária, é o próprio movimento da massa proletária, é força de manifestação das massas proletárias no desenrolar da revolução. Partindo daí, podemos deduzir alguns pontos de vista gerais que permitem julgar o problema da greve massas.

1.º— É absolutamente falso imaginar a greve de massas como acção única. A greve de massas é antes um termo que designa globalmente todo um período da luta de classes que se estende por vários anos, às vezes por decénios. Se considerarmos as inumeráveis e diferentes greves de massas que sucederam na Rússia desde há quatro anos, uma única variante, e esta de importância secundária, corresponde à definição de greve de massas como acto único e breve de características puramente políticas, desencadeado e suspenso arbitrariamente segundo um plano pré-concebido: trata-se da pura greve demonstrativa. Ao longo de um período de cinco anos, vemos na Rússia só algumas greves deste gênero, em pequeno número e, facto notável, ordinariamente limitadas a uma cidade. Citemos entre outras: a greve geral anual do 1.º de Maio em Varsóvia e Lodz — na Rússia propriamente não está largamente espalhado o hábito de celebrar o 1.ºde Maio com uma suspensão do trabalho —; a de greve de massas em Varsóvia a 11 de Setembro de 1905 por ocasião das exéquias do condenado à morte Martin Kasprzak; a de Novembro de 1905 em S. Petersburgo como protesto contra a proclamação do estado de sítio na Polónia e na Livónia; a de 22 de Janeiro de 1906 em Varsóvia, Zodz, Czenstochau e na bacia mineira de Dombrowa, assim como em certas cidades russas em comemoração do domingo sangrento de S. Petersburgo; em Julho de 1906 realiza-se uma greve geral em Tiflis como manifestação de solidariedade para com os soldados condenados por rebelião e, por fim, do pelo mesmo motivo em Setembro deste ano no decorrer do processo militar de Reval. Todas as outras greves de massas parciais ou greves gerais foram greves não desmonstrativas, mas de luta; como tais nasceram espontaneamente por ocasião de incidentes particulares, locais e fortuitos, e não a partir de um plano preconcebido e deliberado e, com o poder de forças elementares, adquiriram dimensões dum movimento de grande envergadura; não terminavam com uma retirada em ordem, mas transformavam-se ora em lutas económicas, ora em combates de rua, ora se esboroavam por si. Neste quadro de conjunto, as greves de demonstração política desempenharam um papel menor — o de pontos minúsculos e isolados numa grande superfície. Se considerarmos as coisas cronologicamente, nota-se o seguinte: as greves demonstrativas que, ao contrário das greves de luta, exigem um nível de disciplina de partido muito elevado, uma direcção política e uma ideologia política conscientes e, portanto, aparecem segundo o esquema como a forma mais elevada e mais reflectida da greve de massas, são sobretudo importantes no início do movimento. Assim a arrancada geral no dia 1 de Maio de 1905 em Varsóvia, primeiro exemplo da aplicação perfeita duma decisão do Partido, foi um acontecimento de grande envergadura para o movimento proletário da Polónia. Da mesma maneira, se fez notar a greve de solidariedade de S. Petersburgo em Novembro de 1905, primeiro exemplo duma acção de massas organizada. Também a «greve de massas experimental» dos camaradas de Hamburgo, em 17 de Janeiro de 1906, desempenhará um papel considerável na história da futura greve de massas na Alemanha: é a primeira tentativa espontânea para usar essa arma tão discutida, tentativa aliás conseguida, que testemunha a combatividade dos operários de Hamburgo. Também o período de greve de massas, uma vez iniciado seriamente na Alemanha, certamente conduzirá à instauração da festa do 1.º de Maio com uma suspensão geral do trabalho. A festa do 1.º de Maio poderá ser celebrada como a primeira demonstração sob o signo da luta de massas. Neste sentido, este «velho cavalo de batalha», como apelidaram o 1.º de Maio no Congresso Sindical de Colónia, tem ainda um grande futuro à sua frente e será chamado a desempenhar um importante papel na luta da classe proletária na Alemanha. Contudo, devido ao desenvolvimento das lutas revolucionárias, a mente. importância de tais demonstrações diminui rapidamente. Os mesmos factores que tornavam objectivamente possível o desencadear das greves demonstrativas, de acordo com um plano concebido anteriormente e a partir das palavras de ordem dos partidos, nomeadamente o desenvolvimento da consciência política e da educação do proletariado, impedem esta espécie de greve; hoje, o proletariado russo, mais precisamente a vanguarda activa das massas, já já não quer saber de greves demonstrativas; os operários sob não estão para brincadeiras e só querem lutas sérias com todas as suas consequências. Se é verdade que no decorrer da primeira grande greve, em Janeiro de 1905 o elemento demonstrativo desempenhou um grande papel — sob uma forma não deliberada, mas instintiva e espontânea — em contrapartida a tentativa do Comité Central do Partido Social-Democrata russo para chamar à greve a favor da Duma, em Agosto, fracassou, entre outros motivos, por causa da aversão do proletariado consciente a acções frouxas e puramente demonstrativas.

2º — Mas se não considerarmos já esta variedade menor representada pela greve demonstrativa, e atentarmos na greve de luta que hoje constitui na Rússia o suporte da acção proletária, somos surpreendidos pelo facto do elemento económico, e o elemento político estarem aí indissoluvelmente ligados. Novamente, a realidade se afasta do esquema teórico; a concepção pedante que quer fazer derivar logicamente a greve política de massas da greve geral económica, transformando-a no estádio mais perfeito e mais elevado, e que separa cuidadosamente as duas fases, é desmentida revolução russa. Isso é demonstrado historicamente pelas greves de massas que — após a primeira grande greve reivindicativa dos operários têxteis de S. Petersburgo em 1896-97 até à última grande greve de Dezembro de 1905 — passaram insensívelmente do domínio das reivindicações económicas ao da política, se bem que é quase impossível traçar fronteiras entre umas e outras. Mas cada uma das greves traça, por assim dizer em miniatura, a história geral das greves na Rússia, iniciadas por um conflito sindical puramente reivindicativo ou pelo menos parcial, percorrendo em seguida todos os graus até à manifestação política. A tempestade que abala no sul da Rússia em 1902 e 1903 começou em Baku, vimo-lo, por um protesto contra o desemprego; em Rostov por reivindicações salariais; em Tiflis, por uma luta dos empregados do comércio, a fim de obterem uma redução no horário de trabalho; em Odessa por uma reivindicação de salários numa pequena fábrica isolada. A greve de Janeiro de 1905 principiou por um conflito no interior das fábricas Poutilov, a greve de Outubro, pelas reivindicações dos ferroviários a favor da Caixa de Aposentação; a greve de Dezembro, pela luta dos de empregados dos correios e telégrafos para obterem o direito reunião. O progresso do movimento não se manifesta, porque o elemento económico desapareceu, mas sim pela rapidez com que se percorrem todas as etapas até à manifestação política e pela posição mais ou menos extrema atingida pelo desfecho da greve de massas.
Porém, o movimento no seu conjunto não se orienta unicamente no sentido de uma passagem do económico ao político, mas orienta-se também no sentido inverso. Cada uma das grandes acções políticas de massas se transforma, após ter atingido o seu apogeu, numa imensidade de lutas económicas. Isto não é somente válido para cada uma das grandes greves, é-o também para a revolução no seu conjunto. Quando a luta política se estende, se clarifica e intensifica, não só a luta reivindicativa continua como se estende, se organiza e se intensifica paralelamente. Há uma completa interacção entre ambas.

Cada novo arranque e cada nova vitória da luta política impulsionam poderosamente a luta económica, alargando as suas possibilidades de acção exterior, e dão novas forças ao proletariado, para melhorarem a sua situação aumentando a sua combatividade. Cada vaga de acção política deixa de si um terreno fértil, onde em breve surgem mil rebentos: as reivindicações económicas. E, inversamente, a incessante guerra económica que os operários travam com o capital mantém alerta a sua energia combativa, mesmo nas horas de acalmia política; de certo modo, constitui um reservatório permanente de energia, onde a luta política busca sempre novas forças; ao mesmo tempo, o infatigável trabalho de luta reivindicativa provoca, ora aqui ora ali conflitos agudos a partir dos quais bruscamente rebentam batalhas políticas.

Em suma, a luta económica apresenta uma continuidade, é o fio que une os diferentes nós políticos; a luta política é uma fecundação periódica que prepara o solo para as lutas de económicas. Causa e efeito sucedem-se, alternam-se incessantemente, e assim os factores políticos e económicos, longe se distinguirem claramente ou de se excluírem reciprocamente como pretende o pretensioso esquema, constituem no período da greve de massas dois aspectos complementares da luta da classe proletária russa. É precisamente a greve de massas que dá forma à sua unidade. A subtil teoria disseca artificialmente, com a ajuda da lógica, a greve de massas para obter uma «greve política pura»: ora, uma tal dissecação — como todas as dissecações — não nos permite observar o fenómeno vivo, entrega-nos um cadáver.

3.º — Por fim, os acontecimentos da Rússia mostram-nos que a greve de massas é inseparável da Revolução. A história da greve de massas na Rússia, confunde-se com a história da revolução. Na verdade, quando os campeões do oportunismo ouvem falar da revolução na Alemanha, pensam imediatamente no sangue vertido, nas batalhas de rua, na pólvora e no chumbo, e daí deduzem com toda a lógica que a greve de massas conduz inevitavelmente à revolução — e a partir daí concluem que é preciso evitá-la. E de facto constatamos Rússia que quase todas as greves levam a um confronto sangrento contra as forças da ordem czarista; isto é tanto verdade para as greves pretensamente políticas, como para os conflitos económicos. Mas a revolução é outra coisa, é mais que um simples banho de sangue. Com excepção da polícia, que entende a revolução como uma simples batalha de rua e tumulto, quer dizer a «desordem», o socialismo científico vê na revolução uma profunda transformação interna nas relações de classe. Nesta perspectiva há entre a revolução e a greve de massas na Rússia uma relação bem mais profunda que a estabelecida pela constatação trivial, ou seja a de que a greve de massas termina, geralmente, por um banho de sangue.

Estudamos o mecanismo interno da greve de massas russa, baseada numa relação de causalidade recíproca entre o de conflito político e o conflito económico. Mas esta relação de causalidade recíproca é precisamente determinada pelo período revolucionário. Só na tempestade revolucionária cada luta parcial entre o capital e o trabalho atinge as proporções de uma explosão geral. Na Alemanha todos os anos, todos os dias, se assiste aos conflitos mais violentos, mais brutais entre operários e patrões sem que a luta ultrapasse os limites do ramo industrial, da cidade ou mesmo da fábrica em questão. A suspensão de operários organizados em S. Petersburgo, o desemprego em Batou, as reivindicações salariais em Odessa, as lutas pelo direito de reunião em Moscovo: tudo isto se produz diariamente na Alemanha. Mas nenhum destes incidentes origina uma acção de classe comum. Mesmo que estes conflitos se estendessem e se transformassem até em greves de massas de características vincadamente políticas, não provocariam um levantamento geral. A greve geral dos ferroviários holandeses que, não obstante as ardentes simpatias que suscitou, se extinguiu na imobilidade absoluta de todo o proletariado, é um exemplo gritante.

Inversamente, só no período revolucionário, em que são abalados os alicerces sociais e as muralhas que separam as classes sociais, qualquer acção do proletariado pode em poucas horas arrancar da indiferença as camadas populares até então na sombra, o que se manifesta naturalmente numa batalha económica tumultuosa. Os operários electrizados bruscamente pela acção política reagem de imediato no campo que lhes está mais próximo: insurgem-se contra a sua condição de escravatura económica. O gesto de revolta que é a luta política faz-lhes sentir uma intensidade inesperada o peso das suas cadeias económicas. Enquanto que na Alemanha a mais violenta luta política: a campanha eleitoral ou os debates parlamentares a propósito das tarifas alfandegárias, têm uma influência mínima no curso ou na intensidade das lutas reivindicativas conduzidas simultaneamente; na Rússia qualquer acção se manifesta imediatamente por uma extensão e uma intensificação da luta económica.

Assim, é a revolução que cria por si só as condições sociais permitindo uma passagem imediata da luta económica à luta política, e vice-versa, que se traduz pela greve de massas. O esquema vulgar só compreende a relação entre greve e revolução nos combates sangrentos a que conduzem as greves de massas; mas, um exame mais profundo dos acontecimentos russos obriga-nos a detectar uma relação inversa: na realidade, não é a greve de massas que produz a revolução, mas é a revolução que produz a greve de massas.

4.º — Basta resumir o que atrás dissemos, para descobrirmos a solução para o problema da direcção e da iniciativa da greve de massas. Se a greve de massas não representa um acto isolado, mas todo um período da luta de classes, e se este é período se confunde com o período revolucionário, é claro, que não se pode desencadear arbitrariamente a greve de massas, mesmo se a decisão vier de instâncias supremas do mais poderoso partido socialista. Tanto não está ao alcance da social-democracia suscitar ou travar revoluções a seu belo prazer, que o entusiasmo e a impaciência mais fogosa das hostes socialistas não conseguiram provocar um período de greve de massas que fosse um movimento popular poderoso e vivo. A audácia da direcção do partido e a disciplina dos operários podem ocasionar, sem dúvida, uma manifestação única e de fraca duração: foi o caso da greve de massas na Áustria, ou ainda a greve de 17 de Janeiro em Hamburgo. No entanto, estas greves assemelham-se tanto a um verdadeiro período de greve revolucionária como as manobras navais num porto estrangeiro, quando as relações diplomáticas estão tensas, se assemelham a uma guerra. Uma greve geral simplesmente produzida pela disciplina e pelo entusiasmo só desempenhará, no melhor dos casos, o papel de um sintoma de combatividade dos trabalhadores, após o que a situação regressará ao calmo rame-rame quotidiano. Mesmo durante a revolução, as greves não caem do céu. É preciso que sejam feitas, duma maneira ou doutra, pelos operários. A resolução e a decisão da classe operária desempenham também o seu papel, mas é necessário frisar que à iniciativa e a direcção de ulteriores operações naturalmente dizem respeito ao sector mais esclarecido e melhor organizado do proletariado, à social-democracia. Mas essa iniciativa e essa direcção só se aplicam na execução de tal ou tal acção isolada, de tal ou tal greve de massas, logo que o período revolucionário esteja em curso, e mais frequentemente no interior de uma dada cidade. Já vimos, por exemplo, a social-democracia, mais duma vez, dar expressamente, e com sucesso, a palavra de ordem para a realização duma greve em a Baku, Varsóvia, Lodz, S. Petersburgo. Tal iniciativa tem menos probabilidades de sucesso se for aplicada a movimentos gerais que englobem todo o proletariado. Por outro lado, a iniciativa e a direcção das operações têm os seus limites determinados. Justamente durante a revolução, é extremamente difícil a um organismo dirigente do movimento operário prever e calcular a ocasião e os factores que provoquem ou não o levantamento. Tomar a iniciativa e a direcção das operações, também aqui, não consiste em dar ordens arbitrariamente, mas sim em adaptar-se à situação o mais habilmente possível, mantendo o mais estreito contacto com o moral das massas. O elemento espontâneo desempenha, como vimos, um enorme papel em todas as greves de massas na Rússia, quer como elemento motor, quer como freio. Este facto não é motivado por a social-democracia russa ser ainda jovem e fraca, mas porque cada operação particular é o resultado de uma infinidade de factores económicos, políticos, sociais, gerais e locais, materiais e psicológicos, de tal maneira que nenhuma delas pode ser definida ou calculada como um exemplo aritmético. Mesmo se o proletariado, com a social-democracia à cabeça, desempenhar o papel dirigente, a revolução não é uma manobra do proletariado, mas uma batalha que se desenrola enquanto que à sua volta se desmoronam e se deslocam sem cessar todos os alicerces sociais. Se o elemento espontâneo desempenha um papel tão importante na greve de massas russa, não é porque o proletariado esteja «deseducado», mas porque as revoluções não se aprendem na escola.

Por outro lado, constatamos na Rússia que esta revolução que tanto dificulta a direcção à social-democracia, que ora lhe rouba, ora lhe estende a batuta de maestro, em contrapartida resolve todas as dificuldades, dificuldades essas que o esquema teórico, como é discutido hoje na Alemanha, considera a principal preocupação da direcção: o problema do «abastecimento», das «despesas», dos «sacrifícios materiais». Sem dúvida, não os resolve da maneira como são discutidos, lápis em punho, no decorrer de uma pacífica conferência secreta, dirigida pelas instâncias superiores do movimento operário. A solução de todos estes problemas resume-se no seguinte: a revolução faz entrar em cena uma tão enorme massa popular que qualquer tentativa para compensar de antemão ou calcular o custo do movimento — como se avaliam as despesas de um processo civil — surge como um empreendimento sem esperança. Também na Rússia, os organismos directivos tentam alimentar o melhor possível as vítimas do combate. Assim, por exemplo, o Partido ajudou durante semanas as corajosas vítimas dos gigantescos lock-out de S. Petersburgo, em consequência da campanha a favor do dia de trabalho de 8 h. Mas todas estas medidas, no imenso balanço da revolução, são uma gota de água no oceano. O preço que a massa proletária paga por cada revolução é com efeito um oceano de privações e sofrimentos horríveis. Um período revolucionário resolve esta dificuldade aparentemente insolúvel, desencadeando na massa um grande idealismo que esta se mantém insensível aos sofrimentos mais atrozes. Não se pode fazer uma revolução nem uma greve com a psicologia de um sindicalizado que só consentiria em suspender o trabalho no 1.º de Maio na condição de poder contar, se for despedido, com um subsídio determinado com precisão, anteriormente. No entanto, na tempestade revolucionária, o proletário, prudente pai de família, desejoso de assegurar o subsídio, transforma-se num «revolucionário romântico» para quem o bem supremo — a vida — e com mais razão o bem-estar material têm uma importância diminuta em comparação com o ideal de luta. Se é pois verdade que ao período revolucionário cabe a direcção da greve no sentido da iniciativa do seu desencadeamento e da responsabilidade nas despesas, não é menos verdade que noutro sentido a direcção das greves de massas cabe à social-democracia e aos seus órgãos directivos. Em vez de ser posta perante o problema da técnica e do mecanismo da greve de massas, a social-democracia é chamada, no período revolucionário, a tomar a sua direcção política. A tarefa mais importante de «direcção» no período de greve massas, consiste em dar a palavra de ordem da luta, em orientá-la, em dirigir a táctica da luta política de tal modo que em cada fase e em cada instante do combate, seja realizada e posta em acção a totalidade do poder do proletariado, já comprometido e lançado na batalha, e que este poder se exprima pela posição do Partido na luta; é preciso que a táctica da social-democracia jamais se encontre aquém do nível da relação das forças em presença no que respeita à energia e à precisão, mas que, ao contrário, ultrapasse este nível; assim a direcção política transformar-se-á automaticamente, e em certa medida, numa direcção técnica. Uma táctica socialista consequente, resoluta, vanguardista, provoca na massas um sentimento de segurança, de confiança, de combatividade; uma táctica hesitante, fraca, alicerçada na subestimação das forças do proletariado, paralisa e desorienta as massas. No primeiro caso, as greves de massas explodem «espontaneamente» e sempre «oportunamente»; no segundo caso, é em vão que a direcção do Partido chama directamente à greve. A revolução russa oferece-nos exemplos sugestivos dum e doutro caso.



[1] Só nas duas primeiras semanas de Junho de 1906, os sindicatos empreenderam as seguintes lutas reivindicativas:

— os tipógrafos de S. Petersburgo, Moscovo, Odessa, Minsk, Vilna, Saratov, Moghilev, Tambov, pelo dia de trabalho de 8 h. e pelo descanso semanal;

— greve geral dos marinheiros em Odessa, Nicolaiev, Kertch, Crimeia, Cáucaso, da frota do Volga, em Cronstadt Varsóvia e Plock, pelo reconhecimento do sindicato e pela libertação dos delegados presos;

— dos operários dos portos em Saratov, Nicolaiev, Tsaritsima, Archangelsk, Ninji-Novgorod e Ribinsk;

— a greve dos padeiros em Kiev, Arkangelsk, Bialystok, Vilna, Odessa, Kharkov, Brest-Litovsk, Radom, e Tiflis;

— dos operários agrícolas dos distritos de Verkhné-Dnieprovs, Borinsovsk, Simferopol, dos governos de Todolsk, Toula, Koursk, dos distritos de Kozlov, Lipovitz, na Finlândia, nos governos de Kiev, do distrito de Elisabethrad;

— em várias cidades a greve estendeu-se num certo período a todas as profissões ao mesmo tempo; por exemplo, em Saratov, Arkangelsk, Kertch e Krementchoug;

— em Backhmout, greve geral dos mineiros em toda a bacia; noutras cidades o movimento reivindicativo atingiu sucessivamente,nessas duas semanas, todas as profissões, por exemplo em S. Petersburgo, Varsóvia, Moscovo, em toda a província de Ivanovo-Volsnesensk.

A greve em toda a parte tinha como objectivos: a redução do tempo de trabalho, o repouso semanal, reivindicações relativas aos salários. A maior parte das greves conduziram à vitória, as relações locais fazem ressaltar que elas atingiram parcialmente categorias deoperários que pela primeira vez participaram numa luta reivindicativa.

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