ROSA LUXEMBURGO - GREVE DE MASSAS PARTIDO E SINDICATOS (1 e 2)

 Rosa Luxemburgo
GREVE DE MASSAS  PARTIDO E SINDICATOS

1

Quase todos os documentos e declarações do socialismo internacional que abordam o problema da greve geral datam da época anterior à revolução russa, onde foi experimentado pela primeira vez na história, em larga escala, este método de luta.

Assim se explica porque envelheceram estes documentos na sua maioria. Inspiram-se numa concepção idêntica à de Engels que, em 1873, criticando Bakunine e a sua mania de forjar artificialmente a revolução espanhola, escrevia:

«A greve geral é, no programa de Bakunine, o fermento que desencadeia a revolução social. Uma bela manhã operários de todas as empresas de um país ou de todo o mundo abandonam o trabalho, obrigando assim, mais ou menos em quatro semanas, as classes poderosas ou a capitular, ou a atacar os operários, tendo estes o direito de defender-se, e ao mesmo tempo de abater inteiramente a velha sociedade. Esta sugestão está longe de ser uma novidade: os socialistas franceses e seguidamente os socialistas belgas, a partir de 1837, usaram amiúde este cavalo de batalha que, originariamente, é de raça inglesa. No curso do desenvolvimento rápido e vigoroso do cartismo no seio dos operários ingleses e após a crise de 1837, apregoava-se desde 1839 o «mês santo», a suspensão do trabalho a nível nacional, e esta ideia encontrou tal eco que os operários do norte de Inglaterra tentaram pô-la em prática em Julho de 1842. O Congresso dos Aliancistas de Genebra, a 1 de Setembro de 1873, colocou igualmente na ordem do dia a greve geral. Simplesmente, todos admitiam que, para fazê-la, era preciso que a classe operária estivesse completamente organizada e tivesse fundos de reserva. É justamente aqui que o problema se agudiza. Os governos por um lado, em especial se são encorajados pela abstenção política, jamais deixarão chegar a tal ponto a organização e os fundos dos operários; por outro lado, os acontecimentos políticos e a intervenção das classes dominantes conduzirão ao enfraquecimento dos trabalhadores muito antes do proletariado atingir essa organização ideal e esses gigantescos fundos de reserva. Por outro lado, se os possuíssem, não teriam necessidade de recorrer à greve geral para atingir os seus fins»[1].

Nesta argumentação se baseou, nos anos seguintes, a atitude da social-democracia internacional relativamente à greve de massas. É dirigida contra a teoria anarquista da greve geral que opõe a greve geral, factor que desencadeia a revolução social, à luta política quotidiana da classe operária. Assenta neste simples dilema: ou o operariado no seu conjunto não possui ainda organização nem fundos consideráveis— e assim não pode realizar a greve geral — ou está devidamente organizado — e então não há necessidade de greve. Esta argumentação é, na verdade, tão simples e inatacável à primeira vista, que durante um quarto de século prestou imensos serviços ao movimento operário moderno, quer combatendo em nome da lógica as quimeras anarquistas, quer ajudando a levar a ideia de luta política às camadas mais profundas da classe operária. Os enormes progressos do movimento operário em todos os países modernos no curso dos últimos 23 anos, justificam da maneira mais gritante a táctica de luta política preconizada por Marx e Engels, em oposição ao bakuninismo: o actual poder da social-democracia, a sua situação na vanguarda de todo o movimento operário internacional é, na sua maior parte, o produto directo da aplicação consequente e rigorosa desta táctica.

Hoje a revolução russa submeteu essa argumentação a uma revisão fundamental; permitiu, pela primeira vez na história da luta de classes, a grandiosa realização da greve de massas, e mesmo — explicá-lo-emos com mais detalhe — da greve geral, inaugurando assim uma nova época na evolução do movimento operário.

Não deve concluir-se que Marx e Engels sustentaram erradamente a táctica da luta política ou que a sua crítica ao anarquismo é falsa. Pelo contrário, são os mesmos argumentos, os mesmos métodos em que se inspira a táctica de Marx e Engels que fundamentam ainda hoje a prática da social-democracia alemã, que na revolução russa produziram novos elementos e novas condições para a luta de classes.

A revolução russa, a mesma revolução que constitui a primeira experiência histórica da greve geral, não somente não reabilita o anarquismo como conduz à liquidação histórica do anarquismo. Poder-se-ia pensar que o reinado exclusivo do parlamentarismo, por um tão longo período, talvez explicasse a existência vegetativa, a que o surto poderoso da social-democracia alemã condenou essa tendência. Podia pensar-se, por certo, que o movimento todo orientado para a «ofensiva» e a «acção directa», que a «tendência revolucionária», no sentido mais brutal do levantamento de forquilhas, estava simplesmente adormecida pelo rame-rame da rotina parlamentar, prestes a acordar após o retorno a um período de luta aberta, numa revolução de rua, e a manifestar então a sua força interna.

A Rússia, sobretudo, parecia particularmente feita para servir de campo de experiência às explorações anarquistas. Um país onde o proletariado não tinha qualquer direito político e possuía uma organização extremamente deficiente, uma mistura incoerente de populações com interesses muito diversos, entrecruzando-se e contrariando-se; o baixo nível cultural em que vegetava a grande massa da população, a extrema brutalidade usada pelo regime vigente, tudo isto concorria para dar ao anarquismo um poder rápido, conquanto efémero. No fim de contas, não era historicamente a Rússia o berço do anarquismo? Contudo o berço de Bakunine devia transformar-se no túmulo da sua doutrina. Na Rússia não somente os anarquistas não estiveram à cabeça do movimento de greve de massas, não somente a direcção política da acção revolucionária, como a greve de massas, estão inteiramente nas mãos das organizações social-democratas — denunciadas encarniçadamente pelos anarquistas como um «partido burguês» — ou nas mãos de organizações mais menos influenciadas pela social-democracia ou próximas dela como o partido terrorista dos «Socialistas Revolucionários»; o anarquismo é absolutamente inexistente na revolução russa, como tendência política séria. Somente em Bialystok, pequena cidade da Lituânia em que a situação é particularmente difícil, onde os operários têm as mais diversas nacionalidades, onde a pequena indústria está completamente dispersa, em que o nível do proletariado é baixíssimo, se nota entre os 6 ou 7 diferentes grupos revolucionários um punhado de «anarquistas», ou ditos como tal, que alimentam, com todas as suas forças, a confusão e a desorientação na classe operária. Pode também observar-se em Moscovo, e talvez em mais duas ou três cidades, um punhado de gente desta. Mas à parte esses poucos «revolucionários», qual é o papel realmente desempenhado pelo anarquismo na revolução russa? Transformou-se no catecismo de vulgares ladrões e larápios; sob a razão social do «anarco-comunismo», foi cometida uma grande parte desses inumeráveis roubos e saques a particulares que grassam nos períodos de depressão, de refluxo momentâneo. O anarquismo, na revolução russa, não é a teoria do proletariado militante, mas a escola ideológica do lúmpen-proletariado contra-revolucionário, rosnando como um bando de tubarões no casco do navio de guerra da revolução. E desta maneira acaba a carreira histórica do anarquismo.

Por outro lado, a greve de massas foi posta em prática na Rússia, não na perspectiva de uma passagem brusca à revolução, como um golpe teatral que permitisse economizar a luta política da classe operária, e em particular o parlamentarismo, mas como um meio de criar ao proletariado, em primeiro lugar, as condições para a luta política quotidiana e, em particular, para o parlamentarismo. Na Rússia a população trabalhadora e, à cabeça desta, o proletariado conduzem a luta revolucionária, servindo-se da greve de massas como a arma mais eficaz na conquista dos mesmos direitos e condições políticas de que, primeiramente, Marx e Engels, demonstraram a necessidade e importância na luta pela emancipação da classe operária, em que saíram vitoriosos no seio da Internacional, opondo-se ao anarquismo. Assim, a dialéctica da história, pedra basilar em que assenta toda a doutrina do socialismo marxista, teve como resultado que o anarquismo, ao qual estava indissoluvelmente ligada a ideia da greve de massas, entrou em contradição com a própria greve de massas; em compensação, a greve de massas, recentemente combatida como contrária à acção política do proletariado, aparece hoje como a arma mais poderosa da luta política na conquista dos direitos políticos. Se é verdade que a revolução russa obriga a rever profundamente o antigo ponto de vista marxista relativo à greve de massas, contudo, somente o marxismo, com seus métodos e perspectivas, obtém neste campo a vitória sob uma nova forma. «A amada de Mouro só pode morrer às mãos do Mouro».


2

Quanto à greve de massas, os acontecimentos na Rússia obrigam-nos, em primeiro lugar, a uma revisão da concepção geral problema. Até agora, os partidários de «tentar a greve de massas» na Alemanha, os Bernstein, Eisner, etc., assim como os inimigos ferozes de tal tentativa representados no sindicato, por exemplo, por Boemelburg, concordam no fundo com a concepção anarquista. Os polos opostos não só não se excluem aparentemente, como ainda se completam, e condicionam mutuamente. Com efeito, pela concepção anarquista das coisas, a especulação sobre a «grande transformação», sobre a revolução social, não é mais do que um aspecto exterior e não essencial; o essencial é o modo abstracto anti-histórico de considerar a greve de massas, assim como todas as condições da luta proletária. O anarquista antevê somente duas. condições materiais preliminares nas suas especulações «revolucionárias»: em primeiro lugar, «o espaço etéreo», e em seguida a boa vontade e a coragem de salvar a humanidade do vale de lágrimas capitalista em que hoje geme. Neste «espaço etéreo» nasceu, há mais de 60 anos, este arrazoado de que a greve de massas era o caminho mais curto, mais seguro e mais fácil para dar o salto perigoso até um além social melhor.

Neste mesmo «espaço da abstracto» nasceu recentemente a ideia, saída da especulação teórica, de que a luta sindical é a única e real «acção directa de massas» e, por conseguinte, a única luta revolucionária — refrão último dos «sindicalistas» franceses e italianos, como se sabe. A infelicidade para o anarquista surgiu, quando os métodos improvisados de luta no «espaço etéreo» se revelaram sempre como puras utopias, além de que na maior parte do tempo, recusando-se a contar com a triste e desprezada realidade, deixavam insensivelmente de ser teorias revolucionárias, para se tornarem auxiliares práticos da reacção.

Ora, no mesmo terreno da consideração abstracta e sem preocupação histórica, colocam-se hoje, de um lado, os que proximamente gostariam de ver desencadear na Alemanha, num dia assinalado no calendário, por um decreto da direcção do Partido, a greve de massas, do outro lado, os que, como os delegados do Congresso Sindical de Hamburgo, querem liquidar definitivamente o problema da greve de massas, interceptando a sua «propaganda». Uma e outra das tendências partem da ideia comum, e absolutamente anárquica, de que a greve de massas é o que uma arma puramente teórica, que facilmente, de acordo com o que se julgue útil, poderia ser facilmente «decidida» ou, inversamente, «proibida», qual navalha que se pode ter fechada no bolso para qualquer eventualidade ou, pelo contrário, aberta e pronta a servir, quando se decidir. Sem dúvida, os adversários da greve de massas reivindicam muito justamente o mérito de ter comandado o terreno histórico e as condições materiais da situação actual na Alemanha, em oposição aos «românticos da revolução» que viajam no espaço imaterial e se recusam terminantemente a lançar um olhar à dura realidade, suas possibilidades e impossibilidades.

«Pactos e números, números e factos», exclamam como M. Gradgrind em «Os Tempos Difíceis» de Dickens. Os adversários sindicalistas interpretam «terreno histórico» e «condições materiais» como dois elementos diferentes: por um lado, a fraqueza do proletariado, por outro, a força do militarismo prussiano.

A insuficiência das organizações operárias e a situação monetária, o poder das baionetas prussianas, são os «factos e números» em que os dirigentes sindicais fundamentam a sua concepção prática do problema. Por certo, as caixas sindicais como as baionetas prussianas são incontestáveis factos materiais e profundamente históricos, mas a concepção política baseada nestes factos não é o materialismo histórico no sentido Marx, mas um materialismo policial no sentido de Puttkammer [2]. Os próprios representantes do Estado contam tanto, e mesmo exclusivamente, com o poder efectivo do proletariado organizado em cada momento, como com o poder material das baionetas; do quadro comparativo destes dois números eles não cessam de tirar esta tranquilizante conclusão: o movimento operário é produzido por mentores e agitadores; ergo temos nas prisões e nas baionetas um meio razoável de nos tomarmos senhores deste «fenômeno passageiro e desagradável».

A classe e operária consciente compreende há muito o ridículo desta teoria policial, segundo a qual todo o movimento operário moderno seria o resultado artificial e arbitrário de um punhado de «agitadores e mentores» sem escrúpulos. Vemos manifestar-se um conceito semelhante quando dois ou três bravos camaradas formam colunas voluntárias de vigilantes nocturnos para pôr a classe operária alemã em segurança contra as ratoeiras de meia dúzia de «românticos da revolução» e contra a sua «propaganda a favor da greve de massas»; ou ainda, quando do lado adverso se assiste ao lançamento de uma campanha indignada e lacrimejante pelos que, desiludidos com a tentativa de uma explosão grevista na Alemanha, se sentem frustrados por não sei que conluios «secretos» da direcção do Partido com a Comissão Geral dos Sindicatos. Se a explosão das greves dependesse da «propaganda» incendiária dos «românticos da revolução» ou das decisões secretas ou públicas dos Comités directivos, não teríamos tido até aqui qualquer importante greve de massas na Rússia. Não há nenhum país — já assinalei o facto na Gazeta Operária de Saxe em Março de 1905 — onde se pensasse tão pouco em «difundir» ou mesmo «discutir» a greve como na Rússia. E os poucos exemplos de resoluções e acordos da direcção do partido socialista russo que decretavam uma completa greve geral — como a última tentativa em Agosto de 1905 após a dissolução da Duma — fracassaram quase por completo. A revolução russa ensina-nos assim uma coisa: é que a greve de massas nem é «fabricada» artificialmente nem «decidida» ou «difundida» no éter imaterial e abstracto, é tão somente um fenômeno histórico resultante, num certo momento, de uma situação social a partir de uma necessidade histórica.

Portanto, não é por especulações abstractas sobre a possibilidade ou impossibilidade, sobre a utilidade ou perigo da greve, mas é pelo estudo dos factores e da situação social que provocam a greve na actual fase da luta de classes, que o problema se resolve; o problema não se compreenderá nem poderá ser discutido numa perspectiva subjectiva da greve geral considerando o que é desejável ou não, mas a partir de um exame objectivo das origens da greve de massas, inquirindo-se se é ou não historicamente necessária.

No espaço imaterial da análise lógica abstracta pode provar-se com o mesmo rigor, tanto a impossibilidade absoluta, a derrota certa da greve de massas, como a sua possibilidade absoluta e a vitória assegurada. Também o valor da demonstração é o mesmo nos dois casos, quer dizer, nulo. É por isso que temer a propaganda em favor das greves de massas e pretender excomungar formalmente os culpados deste crime, é ser vítima de um absurdo mal-entendido. É tão difícil «propagar» a greve de massas como meio abstracto de luta, como «propagar» a revolução. A «revolução» e a «greve de massas» são conceitos que não representam mais do que a forma exterior da luta de classes e só têm sentido e conteúdo, quando referidas a situações políticas bem determinadas.

Empreender uma propaganda adequada à greve como forma de acção proletária, querer difundir essa «ideia» para com ela ganhar pouco a pouco a classe operária, seria uma ocupação tão ociosa, tão vã e insípida como encetar uma campanha de propaganda em prol da ideia de revolução ou do combate nas barricadas. Se a greve se transformou agora num vivo centro de interesse para a classe operária alemã e internacional é porque ela representa uma nova forma de luta, e, como tal, o sintoma correcto de transformações interiores profundas nas relações entre as classes e nas condições da luta de classes. Se os operários alemães — não obstante a cerrada resistência dos seus dirigentes sindicais — manifestam um interesse tão ardente por este novo problema, isso testemunha o seu profundo instinto revolucionário e sua viva inteligência. Mas a esse interesse, a essa nobre sede intelectual, ao entusiasmo dos operários pela acção revolucionária, não se responde dissertando através duma ginástica cerebral abstracta, sobre a possibilidade ou impossibilidade da greve; a isso se responde, explicando o desenrolar da revolução russa, sua importância internacional, o agravamento dos conflitos de classe na Europa Ocidental, as novas perspectivas da luta de classes na Alemanha, o papel e deveres das massas nas lutas futuras. Somente, de acordo com esta óptica, a discussão sobre a greve de massas servirá para alargar o horizonte intelectual do proletariado, contribuirá para espevitar a sua consciência de classe, aprofundar as suas ideias e fortalecer a sua energia para a acção. Por outro lado, sob esta perspectiva, surge o ridículo do processo criminal intentado pelos inimigos do «romantismo revolucionário» que acusam os defensores desta tendência por não terem obedecido literalmente à resolução de Iena. Os partidários de uma política «razoável e prática» aceitam rigorosamente tal resolução visto que ela liga a greve de massas aos destinos sufrágio universal. Julgam poder extrair duas conclusões: 1.º — que a greve tem um carácter puramente defensivo; daí 2.º — que ela própria está subordinada ao parlamentarismo. Mas o verdadeiro conteúdo da resolução de lena reside na análise segundo a qual, no estado actual da Alemanha, uma luta empreendida pela reacção, pelo poder, contra o sufrágio universal para as eleições do Reichstag, poderia ser o factor que assinalaria um período de lutas políticas tempestuosas. Seria então que pela primeira vez na Alemanha, a greve de massas poderia ser desencadeada.

Somente, querer restringir e mutilar artificialmente, por um texto dum Congresso, a importância social e o campo histórico da greve de massas, como problema e como fenómeno da luta de classes, é dar provas de um espírito tão limitado como na resolução do Congresso de Colónia o qual proibiu a discussão da greve de massas. Na decisão de lena, a social-democracia deu oficialmente notícia da profunda transformação efectuada pela revolução russa nas condições internacionais da luta de classes. Aí reside a importância da resolução de Iena. Quanto à aplicação prática da greve de massas na Alemanha a história o decidirá como fez na Rússia; para a história, a social-democracia e suas resoluções são um factor importante, decerto, mas um factor entre muitos.



[1] Engels, Die Bakunisten an der Arbeit.

[2] Puttkammer, 1828-1900, ministro do interior entre 1881 e 1888.

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