CULTURA
A cultura
A cultura
Ora, decidi escrever este texto porque queria desconstruir um fenómeno social relativo à cultura - coisa que vou ainda fazer adiante - mas acabei, como marxista que sou, por entrar muito fundo na questão e encher as páginas com contexto político e teórico maior do que aquilo que pretendia. Enfim, chegando ao ponto: desde pequeno que fui ensinado a apreciar, a criar e apoiar a cultura. Vou a museus e exposições de arte. Vou aos fados e a concertos das bandas locais. Leio e ouço de Portugueses. Escrevo e canto na língua de Camões. Talvez por circunstância, sou também comunista e repudio o conservadorismo.
É por isso então que vejo com imensa tristeza a cultura portuguesa que tanto amo ser usada como uma arma pela direita e ignorada por muitos à esquerda.
Atenção, seria uma enorme mentira dizer que todos os portugueses à esquerda se afastaram da sua cultura natal. Pelo contrário, admito que quem tem tido o maior papel na participação e preservação da arte e da cultura que vejo activamente são de esquerda, por mais geral que seja esse termo.
No entanto, é por isso mesmo que me irrita solenemente ver os jovens conservadores de direita a choramingar, afirmando-se os verdadeiros defensores da cultura portuguesa e que a esquerda malvada vê como o fim da sua política, a total substituição de tudo o que é português.
Que fazem eles pela cultura? Imagens grotescas geradas por inteligência artificial que materializam as suas fantasias sobre a imigração descontrolada e a substituição cultural? Nem para o fazerem à mão! Que sabem eles de arte se não a da estupidez?!
Dito isto, e relembrando a parte inicial deste texto: muita gente vinda da dita “esquerda” tem também negligenciado a história e costumes do nosso povo em reacção a este sentimento paternalista que os fascistas têm com a cultura que eles nem compreendem.
Tendo convivido diariamente com pessoas da chamada “esquerda progressista” na escola e na faculdade (os comunistas são, infelizmente, escassos nesses ambientes hoje em dia) fui ouvindo certas opiniões que me surpreenderam completamente.
Certamente não fui o único que já ouviu coisas ridículas vindas de certos esquerdistas a responder àqueles apelos à defesa da cultura portuguesa contra a substituição. Foi-me dito, com total seriedade nos seus olhos, coisas como: “Querem defender o que? A cultura portuguesa nem existe!” Ou “Eu honestamente também não quero muito saber, a cultura portuguesa é uma m*rda.”
Em que mundo é que estamos, em que agora algumas pessoas rejeitam completamente a existência da identidade portuguesa porque alguns novos meninos salvadores da pátria a declaram sua propriedade?
Tenhamos noção, por favor, que a cultura portuguesa existe, é bela, deve ser protegida e, acima de tudo, não é um brinquedo da direita!
O dever dos comunistas quanto à cultura neste momento em Portugal deve ser recuperar o ideal da defesa da cultura contra o conservadorismo, contra o capitalismo individualista que mata a criatividade e a identidade.
Neste processo, não esqueçamos de dar o exemplo aos portugueses alienados da cultura que ela lhes pertence. Limpemos a cultura das suas tradições reaccionárias e religiosas e lembremos que quem a gerou aos longo dos séculos foram os trabalhadores de Portugal.
Não foram os burgueses a escrever, a cantar, a pintar, a cozinhar e a construir toda nossa identidade nacional, e não serão os reaccionários que a nos vão roubar!
Sou comunista, sou progressista e lutarei sempre pela cultura portuguesa! Morte à reacção!


