Friederich Engels - Anti-Dühring (Introdução - Capítulo II – O que Promete o Sr. Dühring)
- Publicado em 21.02.2026
- Escrito por Luta Popular
Friederich Engels
Anti-Dühring
Prefácios
Introdução - Capítulo I – Generalidades
Introdução
Capítulo II – O que Promete o Sr. Dühring
As obras do Sr. Dühring, que devemos, por ora, tomar em consideração para a nossa análise, são: Philosophie der Kursus, o seu der Kursus Nacional-und Sozialökonomie, e a sua der Geschichte Kritische Nationalökonomie und des Sozialismus (Curso de Filosofia, Curso de Economia Política e Social e a História Crítica da Economia Política e do Socialismo). No momento, interessa-nos principalmente a primeira das obras por nós citadas.
Já na primeira página, o Sr. Dühring anuncia-se-nos como o homem "que se outorga a representação do poder (isto é, da filosofia) na sua época e em todo o seu desenvolvimento próximo previsível". Ou, por outras palavras, declara-se como o único filósofo verdadeiro dos tempos presentes e de um futuro "previsível". Quem dele se afasta, saiba que se afasta da verdade. Não é o Sr. Dühring o primeiro que assim raciocina a respeito de si próprio, mas, excluindo Richard Wagner – é o primeiro que o afirma com tranquilidade. E tenha-se em conta que a verdade que ele possui não é uma verdade como outra qualquer, mas "uma verdade definitiva e sem apelo".
A filosofia do Sr. Dühring é "o sistema natural ou a filosofia da realidade... A realidade apresenta-se nela de modo tal que exclui qualquer quimera de representação sonhadora e subjectivamente limitada do mundo". Esta filosofia está, pois, construída de tal modo, que transporta o seu autor, por cima das fronteiras, acima da sua limitação pessoal e subjectiva, de modo que nem ele próprio o negará. E, com efeito, nada mais era preciso para que o seu autor estivesse em condições de proclamar verdades definitivas e sem apelação, ainda que não tenhamos compreendido, até agora, como é que se pôde realizar semelhante maravilha.
Este "sistema natural de um saber, precioso por si mesmo, para o espírito" tem, “seguramente estabelecido, sem transigir quanto à profundidade da ideia, as formas fundamentais do Ser". A partir da sua "plataforma verdadeiramente crítica", o Sr. Dühring apresenta-nos os elementos de uma filosofia real, projectada, portanto, sobre a realidade da natureza e da vida, ante a qual não se mantém um só horizonte apenas aparente, mas se desenrola ante os nossos olhos surpreendidos, nas suas potentes comoções, todas as terras e os céus da natureza exterior e interior; oferece-nos, pois, um novo método especulativo e os seus frutos são "resultados e observações radicalmente novos..., ideias originais criadoras de sistema... verdades comprovadas." Nela, temos "um trabalho que encontrará a raiz da sua força na iniciativa concentrada"... supondo-se que isso queira dizer alguma coisa; uma "investigação que desce até às raízes..., uma ciência radical..., uma concepção rigorosamente científica das coisas e dos homens..., um trabalho especulativo que penetra em todos os aspectos e modalidades das coisas..., um esboço criador das hipóteses e consequências domináveis pelo pensamento..., o absolutamente fundamental”. O Sr. Dühring não se limita a oferecer-nos, no campo da Economia Política, "trabalhos histórica e sistematicamente vastos", entre os quais os históricos se distinguem ainda por "um traço historicamente grandioso" e que fazem nascer na economia "ciclos criadores"; além disso, termina as suas investigações com um plano socialista completo, pessoal, perfeitamente desenvolvido, da sociedade do futuro, plano que é "o resultado prático de uma teoria clara, que se aprofunda até às últimas raízes" e, portanto, compartilha com a infalibilidade e a virtude da santificação universal, que é o atributo da filosofia Dühringuiana, pois, "só sob a forma socialista por mim desenvolvida no meu Curso de Economia Política e Social pode uma autêntica propriedade ocupar o posto dessa propriedade aparente e provisória conquistada pela violência". O futuro já sabe que, quer deseje ou não, terá que se basear, forçosamente, nessa concepção.
Nada nos custaria aumentar esta colecção de elogios dedicados pelo Sr. Dühring ao Sr. Dühring. Mas cremos bastar o que já dissemos para que o leitor tenha algumas dúvidas sobre o facto de ter realmente diante de si um filósofo ou... Não; rogamos ao leitor que reserve a sua opinião até conhecer mais de perto o prometido "radicalismo". Se apresentamos todo esse florilégio é porque queríamos simplesmente demonstrar não se tratar de um filósofo e socialista vulgar, desses que se limitam a formular as suas ideias deixando que os outros julguem o seu valor, mas de um ser verdadeiramente extraordinário, que afirma possuir a mesma infalibilidade do papa e cuja doutrina, de virtude universalmente santificadora, deve ser aceite sem discussão, se não se quiser incorrer na mais horrenda das heresias. Não, não se trata, absolutamente, de um desses trabalhos que enchem e superlotam as literaturas socialistas de todos os países e, ultimamente, também da Alemanha, de um desses trabalhos que as pessoas de diversos níveis procuram, com a maior sinceridade, para alcançar conclusões claras sobre os problemas para cuja solução lhes falta, em maior ou menor quantidade, dados e conhecimentos, mas nos quais, apesar dos seus defeitos científicos ou literários, merece sempre ser tomada em conta a boa vontade socialista. Nada disso. O Sr. Dühring apresenta-nos doutrinas que ele mesmo proclama verdades definitivas e inapeláveis, e, portanto, de antemão excluem como falsas todas as opiniões diversas. E não só possui a verdade exclusiva como também possui o único método rigorosamente científico para investigá-la, método perto do qual empalidecem, como falhos de seriedade científica, todos os outros. Ou o Sr. Dühring tem razão e, nesse caso, estaremos diante do maior filósofo de todos os tempos, do primeiro homem sobre-humano, infalível, ou, então, o Sr. Dühring está equivocado, mas, mesmo assim, seja qual for a nossa opinião, se tomássemos em consideração, benevolentemente, a sua boa vontade, como se esta existisse, isso seria para ele a maior das ofensas.
Quando se está de posse da verdade definitiva e inapelável e da única ciência rigorosamente científica, é natural que se manifeste um certo desprezo pelo resto da humanidade ignorante da ciência e extraviada no erro. Nada, tem, portanto, de estranho o facto de o Sr. Dühring falar dos seus predecessores com o mais profundo desprezo e só umas tantas pessoas, a quem ele mesmo, como favor excepcional, chama de grandes homens, prevaleçam ante o julgamento do seu "radicalismo".
Vejamos o que nos diz dos filósofos: "Leibnitz, carente de todo o sentido elevado, é o melhor de todos os possíveis filosofadores cortesãos." Kant é ainda tolerado. Depois dele, entretanto, tudo se virou às avessas, pois vieram as tolices e futilidades, tão sem substância e tão enganosas, dos primeiros epígonos, de um Fichte e de um Schelling..., caricaturas monstruosas de incultos filosofastros da natureza..., as "monstruosidades pós-kantianas" e as "fantasias febris" que encontram "num Hegel" o seu remate e a sua coroação. Este filósofo tinha por língua a "gíria hegeliana" e propagou a "epidemia hegeliana", por meio das suas "maneiras e formas anti-científicas", pelas suas "grosserias".
Os naturalistas não têm tratamento melhor, apesar de apenas citar Darwin. Portanto, é a este que temos de nos referir "a semipoesia e a rapidez darwinista de metamorfoses, com a sua grosseira estreiteza de concepções e a sua fraqueza de discernimento... Do nosso ponto de vista, o darwinismo, do qual se deve separar, naturalmente, as doutrinas lamarckianas, é uma afirmação de selvageria e um crime de lesa-humanidade".
Mas os socialistas são os que ficam em piores condições. Com excepção de Louis Blanc – o mais insignificante de todos – eles são todos pecadores e indignos da fama que o Sr. Dühring lhes poderia dar através do seu nome. E tudo isto, não apenas pela sua falta de verdade para com a ciência, mas também pela sua falta de carácter. Excepto Baboeuf, e alguns outros communards, de 1871, todos os outros chegam mesmo a ter "masculinidade". Os três utópicos não são, segundo ele, mais que "alquimistas sociais". Unicamente Saint-Simon consegue um tratamento bastante passável, uma vez que só lhe é reprovado o “exagero", considerando-se caridosamente a enfermidade de megalomania religiosa de que padecia. Mas, ao chegar a Fourier, o Sr. Dühring perde a paciência. Pois Fourier "descobriu todos os elementos da loucura..., ideias que deviam estar naturalmente num manicómio..., os sonhos mais disparatados..., criaturas loucas... O inegavelmente "perturbado Fourier", essa "cabecinha infantil", esse "idiota", nem sequer era socialista; o seu palavreado nada tinha a ver com o socialismo racional; era simplesmente um aborto trabalhado pelo padrão da vida vulgar". E, finalmente, àqueles a quem não bastam essas manifestações (as de Fourier sobre Newton...). para que se convençam de que no nome de Fourier e em todo o fourierismo só a primeira sílaba (fou, em francês significa louco) encerra certa verdade, merecem ser incluídos, por sua vez, em qualquer uma das categorias do idiotismo". E, por fim, ficamos sabendo que Robert Owen "tinha ideias pobres e mesquinhas..., sua mentalidade tão grosseira no que se refere ao terreno moral..., alguns lugares comuns degenerados em ideias confusas..., talento de observação absurdo e torpe... O processo mental de Owen não merece sequer o tempo que se gasta com uma crítica séria... A sua vaidade..." etc., etc. O Sr. Dühring classifica os utópicos, divertindo-se com os seus nomes, com o seguinte desperdício de humor: Saint-Simon, saint (santo), Fourier, fou (louco), Enfantin, enfant (criança). Só lhe faltou acrescentar Owen, o weh (oh! dor em alemão), encerrando um período bastante considerável da história do socialismo com uma piada, em quatro letras, e quem se atrever a pôr isso em dúvida, "merece ser incluído numa qualquer das categorias de idiotismo".
Dos julgamentos, que Dühring faz dos socialistas posteriores, limitar-nos-emos a destacar, devido à sua brevidade, os que faz sobre Lassalle e Marx:
Lassalle: "Ensaios de vulgarização pedantes e pegajosos... excessos escolásticos..., uma mistura monstruosa de teorias gerais e de detalhes mesquinhos..., superstição hegeliana absurda e disforme..., exemplo repelente..., limitação..., envaidecimento jactancioso com a mais banal mediocridade..., nosso herói judeu..., panfletista..., ordinário..., uma concepção da vida e do mundo absolutamente insustentáveis...
Marx: "Estreiteza de concepções..., seus trabalhos e suas conclusões são falhos por si mesmos, isto é, do ponto de vista de teoria pura, do valor permanente, são indiferentes para o nosso objectivo (a história crítica do socialismo), e, no que se refere à história geral sobre as correntes do espírito, pode-se tomá-lo em consideração, no máximo, como um sintoma da influência atingida por um ramo do escolasticismo sectário moderno..., impotência e incapacidade de concentração e ordenação..., deformação de pensamento e de estilo, maneiras de linguagem pouco dignas..., vaidade anglicana..., engano..., concepções áridas, que, na realidade nada mais são do que rimas bastardas da fantasia histórica e lógica..., processos desonestos..., vaidade pessoal..., maneiras insolentes..., impertinências..., frasezinhas engenhosas e tolices..., erudição mesquinha..., um retrógrado na filosofia e na ciência."
E assim por diante, pois, o que dissemos, apesar de suficiente, nada mais é que um florilégio bastante superficial tirado dos jardins do Sr. Dühring. Mas é preciso ficar bem entendido que, no momento, não nos interessa saber se esses amáveis insultos, que, com um pouco de boa educação, poderiam coibir o Sr. Dühring de acusar alguém como "infame" "impertinente", se essas afirmações são também verdades definitivas e inapeláveis. "Assim mesmo nos absteremos, pelo menos no momento – de exteriorizar qualquer dúvida sabre o seu radicalismo", pois temos muito medo de que isso nem sequer nos permitia escolher a categoria de idiotas na qual deveríamos ser incluídos.
Vimo-nos obrigados a dar algumas provas daquilo a que o Sr. Dühring chama de "escolha entre as maneiras correctas e estritamente modestas de expressão", mostrando, além disso, que para o Sr. Dühring a insignificância dos seus predecessores é tão inalterável como a sua própria infalibilidade. Depois disso, nada mais nos resta senão nos humilharmos na mais profunda reverência ante o mais poderoso dos génios de todos os tempos..., se é que as coisas são como ele no-las promete…


