PAÍS

A feliz rentrée de um lacaio pela passadeira da oposição parlamentar

Ontem, dia 9 de Julho, o ainda ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, foi chamado ao Parlamento pelo PCP a fim de esclarecer os deputados da nação sobre a proibição por si ordenada de reabastecimento e sobrevoo do espaço aéreo português pelo avião que transportava o presidente da Bolívia, Evo Morales, na sua viagem entre Moscovo e La Paz.

Foi a primeira vez que Portas apareceu em público investido das suas funções de governante, depois de ter tomado a decisão “irrevogável” de se demitir em nome de querer mais sangue no chamado “corte de despesas” do Estado na saúde, na educação e na segurança social e de exigir menos impostos para o capital e para os detentores dos mais elevados rendimentos.

Metido na ordem pelos seus patrões alemães, e como tal revogando o seu pedido de demissão, Portas apareceu perante a comissão parlamentar que o queria inquirir a jeito de ser denunciado como lacaio do grande capital, do imperialismo germânico e do imperialismo norte-americano e ainda como troca-tintas sem vergonha e sem emenda. Dos deputados da oposição parlamentar apenas se esperaria que interpretassem, no mínimo que fosse, a indignação e a revolta que o comum dos cidadãos nutre, e passou agora a nutrir ainda mais, por tão execrável personagem. Mas, nem de perto nem de longe, foi isso o que se passou na audição de ontem em S. Bento.

Nenhum dos deputados do PCP, do PS e do BE se dignou dizer uma só palavra que fosse para denunciar um dos chefes do governo de traição nacional que ali estava e o responsável por uma miserável manobra destinada a conferir um novo fôlego àquele governo para mais exploração e terrorismo social contra os trabalhadores e contra o povo. Mais do que isso, nenhum daqueles opositores de pacotilha denunciou, como se impunha, o acto ignóbil que foi a referida proibição de reabastecimento e de sobrevoo do espaço aéreo por parte de um avião que transportava o presidente de um país soberano e com o qual Portugal mantém relações amistosas e de respeito mútuo.

O acto concreto que motivou esta audição parlamentar representa uma ofensa sem nome e sem medida ao povo boliviano e a aos povos de toda a América Latina, e uma subserviência canina aos ditames do imperialismo ianque. Depois de se saber, por documentos secretos disponibilizados por um ex-funcionário ligado à espionagem da CIA, Edward Snowden, que o governo dos EUA mantém (e reforçou com o actual presidente Obama) uma gigantesca rede de informação e vigilância sobre todos os cidadãos de todos os países do mundo; e depois de ser tornado público pela mesma fonte que nas embaixadas dos países aliados dos EUA e nas instalações da União Europeia em Washington, Nova Iorque e Bruxelas foram montados pela CIA dispositivos de espionagem; depois disto acontecer, os governos dos países espiados e membros da União Europeia, mandados pelo governo ianque desviar para o mar e para uma eventual catástrofe um avião de um chefe de Estado, só pelo facto de este ter declarado que aceitaria dar asilo ao referido E. Snowden, acataram servilmente essa ordem, numa postura de lacaios e de ex-colonialistas que define bem quem a pratica e que suscita a mais viva repulsa por parte do povo português e de todos os povos do mundo.
Portas saiu contente e feliz daquilo que veio a ser um ameno convívio parlamentar. Mesmo antes de ser entronizado como novo vice-primeiro-ministro pelo presidente da República, Portas teve beija-mão na estrebaria de S. Bento. Antes, ainda na pele de ministro dos Estrangeiros, o figurão pôde pavonear-se, perante deputados oposiocionistas basbaques e gelatinosos, como um “defensor” dos interesses de Portugal nas relações externas e como “amigo” do povo da Bolívia e dos povos sul-americanos.

São episódios lamentáveis e indecorosos como este que explicam o pântano que caracteriza a actual situação política em Portugal e as dificuldades em traduzir em actos e em consequências a forte disposição dos trabalhadores e do povo português em derrubar o governo Coelho/Portas, expulsar a tróica germano-imperialista e construir um novo governo democrático patriótico. É claro que tal pântano e tais dificuldades se destinam a ser removidos, e sê-lo-ão tanto mais depressa quanto mais firme e vigorosa for a denúncia de atitudes de capitulação e de conciliação como aquelas que agora foram protagonizadas por quem pretende ser a alternativa “patriótica e de esquerda” ao governo actual.


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