Opinião
CP - As intermitências do Conselho de Gerência
- Publicado em 12.07.2012
(do nosso correspondente)
Têm vindo a lume, ultimamente, notícias que dão conta que há zonas do País com comboios suprimidos. Umas vezes essas supressões são à tarde, outras de manhã, só nalguns dias. Isto é, nunca são faltas de comboios iguais de dia para dia. Os responsáveis da CP, a começar pelo seu Presidente, têm justificado essas falhas no transporte ferroviário, com a greve que os maquinistas têm em curso. Se antes não havia supressão de circulações, houve o fim de alguns serviços, há uma greve de maquinistas, logo a razão daquelas supressões só pode ser desta greve. Mais, como a intermitência das falhas não é regular, diz-se e dá-se a entender que são greves a bel-prazer de cada um, “à la carte” e que a breve trecho implicam o fecho de mais linhas, por falta de passageiros.
Mas examinemos mais de perto e esmiucemos a questão. Os maquinistas têm vindo a encetar, desde fins de Dezembro do ano passado, uma greve ao trabalho para além das 8 horas diárias, a mais de 5 horas consecutivas de trabalho sem qualquer pausa para descanso, ao trabalho extraordinário, e desde Julho, juntamente com todos os outros ferroviários, greve aos dias de descanso semanal e aos feriados. É certo que acabaram certos serviços, em que inclusivamente foram deixadas populações inteiras sem qualquer tipo de transporte e há esta greve, nestes moldes, que vem demonstrar aquilo que era evidente: a CP tem falta de pessoal. Servia-se dos seus funcionários, ela sim “à la carte”, para suprir essa lacuna, pagando um preço muito inferior, no orçamento anual, do que se tivesse de admitir mais pessoal para completar a falta de quadros. Menos contribuições para a Segurança Social, menos TSU a pagar ao Estado, menos preocupações com a gestão de recursos humanos, mais IRS retido na fonte, pois com o aumento do valor a receber, os escalões por cada trabalhador, subiam . Era um negócio que lhe era bastante favorável. Nunca se queixou que havia funcionários seus que não tinham um único descanso durante meses. E não vale a pena dizer que esses funcionários também não se importavam de trabalhar assim, até ganhavam mais, porque na realidade quem não o fizesse era logo apelidado de “não colaborador com o serviço” e “quando precisares de alguma coisa já estás aqui na lista negra”. Isto tudo com o beneplácito de todos os sectores dirigentes da empresa. Era um negócio que lhe era bastante favorável, além de ter um certo número de profissionais debaixo da sua alçada.
O caricato neste queixume da empresa, é que não tem havido supressões, nem falta de pessoal, nos comboios Alfa e Intercidades. Seria lógico que com estes comboios se passasse o mesmo do que com os regionais, suburbanos e mercadorias, mas não. É que a empresa, para estes comboios, tem desviado pessoal disponível e são estes os comboios que garantem uma boa parte das receitas. Além de que se encontram, maioritariamente, no tal eixo estratégico, único que a empresa e o Estado têm interesse em explorar, que é o eixo Faro/Lisboa/Porto/Braga, e tudo o resto é paisagem.
Continuando a esmiuçar, verificamos que há maquinistas com pedidos de transferência, de Depósitos centrais para outros regionais, mas que não lhes são dadas essas transferências. São os casos de um colega de Lisboa-Stª Apolónia e outro da Bobadela, com pedidos para o Algarve, mas a quem não são concedidas as transferências com o argumento de que nada será feito enquanto a greve durar. Mesmo nesses Depósitos há maquinistas que não têm os cursos de certas automotoras, no caso as UDD 450, e que como tal não podem ir fazer serviço, por exemplo, ao Oeste, linha onde a intermitência de comboios se tem feito sentir. E os cursos dessas unidades não podem ser dados, porque nada será feito enquanto a greve durar.
No Algarve, há um caso ainda mais grave, que é o de um Colega que esteve os primeiros seis meses do ano passado de baixa, por problemas na coluna, provocados pelas más condições de trabalho que sempre ali se verificaram, com a linha completamente degradada, condução durante anos a fio em cima das 1200, que se tinham de conduzir de pé durante horas. Como durante este tempo de baixa as UTD 600 foram substituídas pelas UDD 450, não pôde tirar o curso desta unidade, embora quase todos os maquinistas daquele Depósito o tivessem tirado, mesmo havendo greve. Quando voltou ao serviço, e como estava retirado da condução, não lhe foi ministrado o curso, não se sabe porquê. Passando à situação de apto para todo o serviço em Fevereiro, já decorria esta greve, pelo que não lhe dão o curso, porque nada será feito enquanto a greve durar. Está neste momento fora de escala (sem fazer nada), manietado por uma gestão de pessoal que só vê culpas na greve dos maquinistas. No entanto, continuam a ser suprimidos comboios por falta de pessoal. E a este mesmo Colega, foi-lhe negado o direito de gozar férias durante as suas férias escolares, pois é trabalhador-estudante e detentor do respectivo Estatuto, alegando a empresa, primeiro, com uma lei (116/97 de 4 de Novembro) que já tinha sido revogada pelo primeiro Código do Trabalho (2003), depois, com o argumento de que não se aplicava lei nenhuma e, ultimamente, com o que está decidido, decidido está.
Por estes exemplos se vê que não é por culpa da greve dos maquinistas que em determinadas zonas do País há falta de comboios. Até porque se os maquinistas e todos os outros ferroviários têm neste momento diversas formas de luta, deve-se única e simplesmente ao não cumprimento, por parte da CP, do que ficou assinado, de livre vontade, entre a administração e os representantes dos trabalhadores. Deve-se ainda ao roubo que a Tróica nos quer fazer do resto do salário e do trabalho e que as novas alterações ao CT vêm facilitar. A luta dos ferroviários é a luta de todos os trabalhadores portugueses. Como tal só há que prosseguir nesta via, em conjunto com os outros trabalhadores de Norte a Sul do País, pela organização de uma nova Greve Geral Nacional que vise o derrubamento deste Governo, a recusa do pagamento de uma dívida que além de impagável, não é nossa nem foi contraída em nosso benefício e pela imposição de um Governo Democrático Patriótico, cujas primeiras medidas sejam a favor do Trabalho, do desenvolvimento da economia e contra o bode expiatório de que quem trabalha é que é o responsável pelo estado de degradação social a que o País chegou .


